sábado, 25 de fevereiro de 2012

O que acontece quando um ser humano morre?




Renascimento
O que acontece quando um ser humano morre? Para o olho carnal, as propriedades materiais e mentais se desintegram. Ok. Mas isso é tudo? Em resposta a essa questão, diferentes interpretações sobre o [renascimento] surgem. De acordo com o Ensinamento do Buddha, o potencial do kamma, o impulso do desejo sedento, não desaparece simplesmente com a morte. As escrituras explicam que o fluxo de momentos mentais, impulsionado pelo desejo sedento, continua em uma nova forma, e assim, uma nova vida vem a ser. No sentido último, nossa vida presente é uma série de momentos mentais que rapidamente surgem e desaparecem com base em um único organismo físico. Após a morte, essa série de fluxos mentais continua, encontrando apoio em um novo organismo físico.

O último momento de vida é seguido por renascimento numa nova existência. Um sutta (AN 111,76) ilustra este processo com uma bela imagem: kamma é como o campo nutriente, desejo é como umidade; e consciência é como a semente a qual germinará e se desenvolverá no campo. Deste modo um ser renasce.

Serei eu o que renascerá ou é o ser na próxima existência algum outro? Antes que tentemos responder a esta questão, necessitamos compreender mais claramente a natureza do “mim” em torno do qual a questão anda à volta.

Um Pequeno Exercício
Por favor, comparem o bebê que vocês eram no seu primeiro ano de vida com a pessoa que vocês são agora: É a mesma pessoa ou não? “Certamente que não”, vocês dirão. Tudo bem, agora peguem vocês com a idade de cinco anos e o presente. Aos cinco vocês já podiam falar, mas aquele pequeno menino ou menina era alguém bem diferente, não era? Que tal aos dez anos? Nesta idade alguns de seus traços característicos já poderiam estar aparentes, mas seus interesses e aptidões eram bem infantis. Então vamos considerar os vinte anos. A pessoa que vocês eram aos vinte e a pessoa que vocês são agora: Elas são a mesma pessoa ou não? Está ficando difícil de dizer. Mas vocês provavelmente pensarão que as duas não são a mesma pessoa. Comparem o último mês e agora.

E ontem? E uma hora atrás? Na verdade, quando começaram a ler este ensaio, não eram exatamente o mesmo “eu” que são agora. Momento a momento não somos os mesmos, no entanto, também não somos completamente diferentes. Isto é exatamente o que renascimento significa: o ser da última existência, o ser desta vida e aquele que renascerá no futuro – não são bem o mesmo, mas também não são diferentes.

Os comentadores antigos ilustram o processo de renascimento com o símile de um selo. O selo e sua impressão não são a mesma coisa, mas também não são completamente diferentes. Na verdade, eles são conectados pela relação de causa e efeito. Nada é transferido, mas uma influência causal age. Similarmente, a vida passada não é igual à vida presente, e ainda assim não são completamente distintas, por estarem ligadas pela influência causal.

No Buddhismo uma “pessoa”, o “eu”, só tem realidade relativa, que não pertence à categoria de verdade suprema. A noção de “self” pode às vezes ser tão clara, forte e convincente; mas se virarmos os holofotes da nossa consciência sobre ela, de repente ela dá uns passos para trás, se dispersa e dissolve, e muda de lugar.

O Que É Esse “Eu”?
No Ensinamento do Buddha, o “Eu”, a ideia de “ego”, a noção de “meu eu” é uma concepção errônea, uma das mais poderosas expressões da ignorância e do desejo. Esses textos descrevem dois níveis diferentes da noção do “eu”. O primeiro é a presunção, que na sua forma mais sutil e aderente é a pura noção de “eu sou” (asmimāna). Os tipos grosseiros de presunção surgem quando comparamos o “eu” ilusório com nossas imagens de outras pessoas. Essa atitude comparativa e competitiva sempre resulta em outros três resultados possíveis: “eu sou melhor”, “eu sou pior” ou “eu sou igual”.

É interessante notar que não só os arrogantes “eu sou melhor”, mas também os autodestrutivos “eu sou pior”, assim como a errada ideia de “eu sou igual”, são tudo modos de presunção. O erro da atitude em “eu sou melhor – pior – igual” não é que eu não seja realmente melhor ou pior ou igual, mas que não há um real, um verdadeiramente existente “eu” que seja melhor ou pior ou igual.

O segundo nível de ilusão de “self” é denominado “crença na personalidade” (sakkāyadiṭṭhi): a visão na qual na mente e no corpo existe um “self” duradouro e essencial, um “eu” único e firme, uma alma interior. Existem inúmeras variantes desta “crença na personalidade”. Algumas pessoas assumem que seu complexo mente-corpo ou alguma parte deste, tal como a consciência, volição, percepção, etc., é o “eu” ou “mim”. Outras pensam de maneira contrária: que o “eu” possui uma mente e um corpo. Para algumas pessoas a mente e o corpo são o assento da alma. O materialista acredita que o “eu” é um produto do complexo mente-corpo. Algumas pessoas imaginam que o seu “self” ou alma são separados do organismo mente-corpo, etc.

Às vezes, as pessoas se identificam predominantemente com o corpo, às vezes, com a mente e as funções mentais. Todas essas crenças giram em torno de ideias erradas: “Isso é meu, este é o meu self”.

A ideia do “self” está fortemente enraizada em nossa mente; somos extremamente apegados a ela. Quando nossa vida está em perigo real, os instintos assumem o controle – a natureza cuida de si mesma. Mas quando nosso “eu” ou “ego” está em perigo, somos arrebatados pelas emoções.

O conceito do “eu” é um grande fardo, um fardo inútil. Libertarmo-nos desta condição não significa ficar pessoal e socialmente incompetente, como algumas pessoas incorretamente assumem. Um arahant é livre de apego a qualquer tipo de imagem própria, de todas as ilusões de um “eu” e, no entanto, é conhecido por ter “uma mente como um diamante”.

Do ponto de vista último, tudo aparenta ser muito diferente daquela forma que estamos habituados a conceber as coisas; toda a realidade é vista como tendo um modo de existência bastante diferente daquela que habitualmente assumimos. Sem uma experiência meditativa pessoal, contudo, poderá ser difícil para nós apreendermos nem que seja uma nuance desta afirmação, para já não falar de compreendê-la na sua totalidade. Quando a vida de uma pessoa é vista com um profundo insight, revela-se como sendo apenas o surgimento e desaparecimento muito rápido de consciência juntamente com os seus objetos. No seu conjunto chamamos nāma-rūpa, “mentalidade-materialidade”, a este processo impessoal e em permanente mudança de formações mentais e materiais. Sei que isto é muito difícil de compreender, mas, por favor, tentem seguir o meu raciocínio. Se olhassem para o vosso próprio dedo através de uma lente de um poderoso microscópio, teriam igual dificuldade em acreditar naquilo que iriam ver!

No último nível de realidade não falamos (nem podemos) falar de maçãs, pessoas, montanhas, sorvetes, AIDS e galáxias. Conceitos mundanos como “ontem”, “o ambiente”, “Paris”, “um problema”, “uma mulher” não têm lugar aqui. A este nível não há “pessoa”, “eu” ou “self”.

Conforme descemos ao nível da realidade convencional, ao nível da verdade relativa, vivenciamos uma sucessão rápida de fenômenos materiais e mentais através do conhecimento de objetos variados, sejam físicos ou mentais. A primeira ideia do “eu” surge com o reconhecimento destes objetos através da percepção. Este é o estágio em que nossa experiência divide-se em duas partes: o “observador” e o “observado”, um sujeito interagindo com um objeto. Este é o berço da dualidade.

Do ponto de vista experiencial o conceito de “eu” tem muitos níveis e intensidades. Para os meus propósitos imediatos deixe-me dividir o espectro de diferentes “eus-ilusão” em dois grupos: o “eu” e o “Eu” (“Meu Eu”). O sentido muito básico de um “sujeito”, mencionado acima, mescla-se em intensidades gradualmente mais “solidificadas” de “Eu” com cada vez mais limites distintos entre “mim” e o “mundo”. Aqui, a ideia de uma personalidade separada e uma identidade pessoal aparecem, com a noção de seus pertences e posses.

Não há nenhum problema com o sentido funcional de “eu”, que é frequentemente usado até mesmo por seres completamente iluminados. No nosso dia a dia, precisamos usar as expressões “eu” e “meu”. Seres plenamente realizados, no entanto, não estão apegados a essas ideias e libertam-se da sensação de “eu” assim que não precisam mais dela. Esta habilidade distingue-os claramente das pessoas comuns.

O Sofrimento Realmente
Mais acima nesta escala de ilusão do ego está o “eu” e “meu eu” autoreferente, que reflete sobre si mesmo, o senso de self alimentado por competitividade e fervor emocional. Esta forma de ilusão do ego é muito auto-interessada, acompanhada por um forte senso de propriedade e autoria. Por esta razão, também é altamente vulnerável. O senso individualista e autocentrado de “mim” surge frequentemente nas nossas reflexões privadas. Torna-se ainda mais intenso quando a nossa personalidade é exposta e ameaçada, reforçada ou enfraquecida, por causa do sucesso ou fracasso, aplauso ou humilhação, vitória ou derrota.

Este autodenominado “ego” é como uma marca registrada da ignorância e apego cristalizados em nossa vida; é a imediata, sempre pronta, inesgotável fonte de sofrimento de alta qualidade. Entretanto, por favor, lembrem-se que embora este sentido de “self” seja a fonte do sofrimento, ele não é a causa do sofrimento. A causa do sofrimento é o nosso apego à imagem de “eu mesmo”. O “eu” é como um balão que pode ser inflado ou desinflado; ele pode explodir, mas uma nova bolha irá rapidamente substituí-lo.

No Ensinamento do Buddha não abordamos a prática com a ideia de dissolver o “ego” ou o “eu”. Tal atitude poderia realmente fortalecer a ideia errada de si, sugerindo que há um eu que precisa ser dissolvido. O ensinamento não está preocupado com o “eu”, mas aponta, sim, diretamente para o “não-eu”. Na prática da meditação vipassanā aprendemos a ver que aquilo que chamamos de nosso “eu” é apenas o desenrolar de um impessoal fenômeno mental e material. Tal como acontece com outras ideias, a visão sobre o não-eu (anattā) pode ocorrer em intensidades diferentes com o desenvolvimento progressivo da meditação vipassanā. Conforme nossa prática amadurece percebemos com clareza crescente a auto-vacuidade, a natureza desabitada da mente e corpo. O Ensinamento do Buddha não lida com expressões múltiplas de ignorância individualmente, mas foca diretamente no corte das raízes de todos os vários tipos de males. A “crença na personalidade” e a presunção são apenas dois dos dez “grilhões”. Para a libertação integral todos os dez devem ser superados [3].

[3] Os dez grilhões (samyojana): (1) crença na personalidade, (2) dúvida cética, (3) apego a rituais, (4) desejo sedento sensual, (5) má vontade, (6) desejo sedento pela existência celestial, (7) desejo sedento pela existência imaterial, (8) presunção, (9) inquietude, (10) ignorância.

Meditação vipassanā é o mais alto estágio no treinamento do Dhamma e, além disso, é um estágio muito difícil. Algumas pessoas praticam a meditação do insight para reajustar a proporção de felicidade e tristeza em suas vidas. Isso tem o seu valor, mas nós devemos ser cuidadosos para não diluir os Ensinamentos do Buddha em um tipo de terapia. Nós podemos comprar um excelente aparelho de som de alta definição por $10.000,00 apenas para ouvir a previsão do tempo pela manhã, mas este não é o propósito para o qual um instrumento tão sensível foi feito.

Além do benefício extramundano da meditação vipassanā, o Dhamma também oferece formas simplificadas de treino que permitem alcançar benefícios e bênçãos nas nossas vidas correntes, sendo uma prática que pode trazer felicidade para as nossas vidas no momento presente de forma ainda mais direta, por exemplo, mantendo os padrões básicos de conduta ética (os cinco preceitos), desenvolvendo bondade amorosa e boa vontade, desenvolvendo e oferecendo generosidade, ensinando-nos a mostrar o respeito, oferecendo o serviço altruísta, restringindo os prazeres sensoriais, etc. Estas qualidades não são apenas nutrientes de uma vida próspera, com sentido, mas também requisitos para um treino meditativo avançado.

A maior forma de ilusão do “eu” é o egoísmo cego. Isso também pode assumir diferentes formas. Algumas pessoas, obcecadas por este tipo de insensibilidade, experimentam o seu ambiente como uma paisagem lunar estéril e desolada, habitada seja por aliados ou inimigos. Normalmente, eles percebem as pessoas como objetos úteis ou ameaçadores. A ideia fixa de constante ameaça é combatida com agressão. Outros podem ficar completamente perdidos por desejos sensuais, até mesmo ao ponto da total escravidão.

Por: Ven. Ottama Sayadaw
Publicado em: nalanda.org.br

Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda
em acordo com o Autor
© 2011 Edições Nalanda

Nota: “Ensinamentos sobre o Kamma” consiste de um ensaio moderno sobre a doutrina do kamma (skr. karma, ação) no Buddhismo, escrito pelo venerável Ashin Ottama Sayadaw. Ashin Ottama é monge buddhista e professor na linhagem de Mahasi Sayadaw, abade do Mosteiro Bodhipala na Suíça e atualmente vivendo na Itália. Esteve em fevereiro de 2012 no Brasil a convite da Comunidade Nalanda.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O que é Kamma ou Karma ?




O que é Kamma?

Kamma é uma lei impessoal e natural que opera de acordo com nossas ações. É uma lei por si mesma e não possui nenhum criador. Kamma opera em seu próprio campo sem a intervenção de um agente externo, independente e regente.

O kamma pode ser exposto na linguagem simples de uma criança: faça o bem e o bem virá para você, agora e depois. Faça o mal e o mal virá para você, agora e depois.

Na linguagem da colheita, kamma pode ser explicado dessa forma: se você semeia boas sementes, irá ter uma boa colheita. Se você semeia sementes ruins, irá ter uma má colheita.

Na linguagem da ciência, kamma é chamado de lei de causa e efeito: toda causa tem um efeito. Outro nome para isso é a lei da causação moral. Causação moral funciona no reino moral, assim como a lei física de ação e reação funciona no reino físico.

No Dhammapada, kamma é explicado dessa maneira: a mente é o chefe (o que vai à frente) de todos os estados bons e ruins. Se você fala ou age com uma mente ruim, então a infelicidade o seguirá como a roda segue o casco do boi. Se você fala ou age com uma mente boa, então a felicidade o seguirá como a sombra que nunca o deixa.

Kamma é simplesmente ação. Nos organismos vivos, há um poder ou força para a qual são dados diferentes nomes, tais como tendências instintivas, consciência, etc. Essa propensão inata força cada ser consciente a se mover. Uma pessoa se move mental ou fisicamente. Seu movimento é ação. A repetição das ações é hábito, e hábito se torna caráter. No Buddhismo, esse processo é chamado de kamma.

No sentido último, kamma significa ação ou volição, tanto boa quanto má. ‘Kamma é volição’, disse o Buddha. Assim, kamma não é uma entidade, mas um processo, ação, energia e força. Alguns interpretam essa força como ‘influência-da-ação’. São nossos próprios atos reagindo em nós. A dor e a felicidade que uma pessoa experimenta são os resultados de suas próprias ações, palavras e pensamentos reagindo nela mesma. Nossas ações, palavras e pensamentos produzem nossa prosperidade e fracasso, nossa felicidade e miséria.

Kamma é uma lei natural e impessoal que opera estritamente de acordo com nossas ações. É uma lei por si mesma e não possui nenhum criador. Kamma opera em seu próprio campo sem a intervenção de um agente externo, independente e regente. Como não há nenhum agente escondido dirigindo ou administrando recompensas ou punições, os buddhistas não rezam para alguma força sobrenatural a fim de influenciar os resultados kammicos. De acordo com o Buddha, kamma não é nem predestinação nem determinismo imposto a nós por poderes ou forças misteriosas e desconhecidas aos quais devemos impotentemente nos submeter.

Os buddhistas acreditam que se irá colher o que se plantou; somos o resultado do que fomos, e seremos o resultado do que somos. Em outras palavras, não somos absolutamente o que fomos, e não continuaremos a ser o que somos. Isso simplesmente significa que kamma não é um completo determinismo. O Buddha indicou que se tudo está fixado ou determinado, então não haveria livre arbítrio, nem vida moral ou espiritual. Meramente seríamos escravos de nosso passado. Por outro lado, se tudo é indeterminado, então não poderia haver cultivo do crescimento moral e espiritual. O Buddha, assim, declarou a verdade do Caminho do Meio: tal kamma deve ser entendido nem como estrito determinismo, nem como absoluto indeterminismo, mas como uma interação de ambos.

Do livro: No que os Budistas acreditam. Leia na integra na internet - http://noqueosbuddhistasacreditam.wordpress.com/


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Diferentes Tipos de Amor






O Rei Pasenadi olhou para o Buda. Ele ficou impressionado. O Buda falou com voz calma e quieta e o que disse foi ao mesmo tempo simples e profundo. O rei sentiu que podia confiar no Buda e então perguntou o que o estava angustiando.

“Mestre Gautama, há pessoas que dizem que você aconselha às pessoas a não amarem. Eles dizem que quanto mais uma pessoa ama, mas sofrerá e se desesperará. Posso ver alguma verdade nessa afirmativa, mas não consigo encontrar paz com ela. Sem amor, a vida pareceria vazia de significado. Por favor, me ajude a resolver isso.”

O Buda olhou para o rei de forma acolhedora. “Majestade sua questão é muito boa, e muitos podem se beneficiar dela. Há muitos tipos de amor. Deveríamos examinar em detalhes a natureza de cada tipo de amor. A vida tem grande necessidade da presença de amor, mas não do tipo de amor que é baseado na luxúria, paixão, apego, discriminação e preconceito. Majestade há outro tipo de amor, extremamente necessário, que consiste de bondade amorosa e compaixão, ou maitri e karuna.”

“Usualmente quando as pessoas falam de amor eles se referem apenas ao amor que existe entre pais e filhos, maridos e esposas, membros da família, casta ou país. Devido à natureza deste amor depender do conceito de ‘eu’ e ‘meu’, ele permanece misturado com apego e discriminação. As pessoas querem apenas amar seus pais, esposos, filhos, netos, seus parentes e compatriotas. Como são capturados pelo apego, eles se preocupam com acidentes que podem acontecer a seus amados mesmo antes deles ocorrerem. Quando esses acidentes ocorrem, eles sofrem terrivelmente. O amor que é baseado na discriminação produz preconceito. As pessoas se tornam indiferentes ou mesmo hostis àqueles fora de seu círculo de amor. Apego e discriminação são fontes de sofrimento para nós mesmos e para os outros. Majestade, o amor pelo qual todos os seres estão verdadeiramente famintos é a bondade amorosa e a compaixão. “

“Maitri é o amor que tem a capacidade de levar felicidade para outro. Karuna é o amor que tem a capacidade de remover o sofrimento do outro. Maitri e karuna não exigem nada em troca. Bondade amorosa e compaixão não estão limitadas aos pais, esposos, filhos, parentes, membros da casta e compatriotas. Eles se estendem a todas as pessoas e todos os seres. Em maitri e karuna não há discriminação, não há ‘meu’ e ‘não meu’. E como não há discriminação, não há apego. Maitri e karuna trazem felicidade e aliviam o sofrimento. Eles não causam sofrimento ou desespero. Sem eles, a vida seria vazia de significado, como você disse. Com bondade amorosa e compaixão, a vida é preenchida de paz, alegria, e contentamento. Majestade, você é o dirigente de todo um país. Todas as pessoas se beneficiariam de sua prática de bondade amorosa e compaixão.”

O rei inclinou sua cabeça pensando. Ele olhou ao Buda e perguntou, “Eu tenho uma família para cuidar e um país para dirigir. Se eu não amasse minha família e povo, como poderia cuidar deles? Por favor, esclareça para mim.”

“Naturalmente você deve amar sua própria família e povo. Mas seu amor pode também se estender para além de sua família e povo. Você ama e cuida do príncipe e da princesa, mas isso não o impede de amar e cuidar de outros jovens no reino. Se puder amar todos os jovens, seu amor atual, que é limitado, se tornará um amor inclusivo e todos os jovens do reino serão seus filhos. Isto é o que significa ter um coração de compaixão. Não é apenas um ideal. É algo que pode ser realizado, especialmente por alguém como você que tem tantos meios a disposição.”

“Mas e sobre os jovens dos outros reinos?”

“Nada o impede de amar os jovens de outros reinos como se fossem seus filhos mesmo que eles não habitem sob sua jurisdição. Apenas porque alguém ama seu povo não é razão para não amar povos de outros reinos.”

“Mas como posso mostrar meu amor por eles se não estão sob minha jurisdição?”

O Buda olhou para o rei. “A prosperidade e segurança de uma nação não deveria depender da pobreza e insegurança das outras nações. Majestade, paz duradoura e prosperidade são apenas possíveis quando as nações se juntam em um comprometimento comum para procurar o bem estar de todos. Se você quer que Kosara realmente desfrute de paz e que os jovens do seu reino não percam a vida nos campos de batalha, você deve ajudar aos outros reinos a achar paz. As políticas externas e econômicas devem seguir o caminho da compaixão para a paz verdadeira ser possível. Ao mesmo tempo, enquanto você ama e cuida de seu próprio reino, você pode amar outros reinos como Magadha, Kasi, Videha, Sakya e Lokya.”

“Majestade, ano passado eu visitei minha família no reino de Sakya. Eu descansei muitos dias em Arannakutika aos pés do Himalaya. Lá eu fiquei muito tempo refletindo sobre uma política baseada na não-violência. Eu vi que nações podem de fato desfrutar de paz e segurança sem ter que recorrer a métodos violentos tais como prisões e execuções. Eu falei dessas coisas ao meu pai, rei Suddhodana. Agora eu aproveito essa oportunidade para dividir as mesmas idéias com você. Um dirigente que nutre sua compaixão não precisa depender de meios violentos.”

O rei exclamou, “Maravilhoso! Verdadeiramente maravilhoso! Suas palavras são as mais inspiradoras! Você verdadeiramente é o iluminado! Eu prometo refletir em tudo o que disse hoje. Eu penetrarei em suas palavras, que contêm muita sabedoria. Mas por agora, por favor, permita-me perguntar uma questão simples. Ordinariamente, amor realmente contém elementos de discriminação, desejo e apego. De acordo com você, este tipo de amor cria preocupação, sofrimento e desespero. Como pode alguém amar sem desejo e apego? Como posso evitar criar preocupação e sofrimento no amor que sinto pelos meus filhos?”

O Buda respondeu, “Nós precisamos olhar para a verdadeira natureza de nosso amor. Nosso amor deveria trazer paz e felicidade aos que amamos. Se nosso amor é baseado em um desejo egoísta de possuir outros, não seremos capazes de levar até eles paz e felicidade. Ao contrário, nosso amor os fará se sentirem em uma armadilha. Tal amor não é mais que uma prisão. Se as pessoas que amamos são incapazes de serem felizes devido ao nosso amor, eles acharão uma maneira de se libertar. Não aceitarão a prisão do nosso amor. Gradualmente o amor entre nós se tornará raiva e ódio.”

“Majestade, você ouviu a tragédia que aconteceu dez dias atrás em Savatthi devido ao amor egoísta? A mãe sentiu que tinha sido abandonada pelo seu filho quando ele se apaixonou e casou. Ao invés de se sentir como se houvesse ganho uma filha, ela apenas sentiu que havia perdido seu filho e se sentiu traída por ele. Por isso, seu amor se tornou ódio e ela pos veneno na comida do jovem casal matando ambos.”

“Majestade, de acordo com o Caminho da Iluminação, amor não pode existir sem entendimento. Amor é Entendimento. Se você não pode entender, não pode amar. Maridos e esposas que não se entendem, não se amam. Irmãos e irmãs que não se entendem, não se amam. Pais e filhos que não podem se entender, não podem se amar. Se você quer que seus amados sejam felizes, você deve aprender a entender seus sofrimentos e suas aspirações. Quando você entende, saberá como aliviar seus sofrimentos e como ajudá-los a tornar realidade suas aspirações. Isto é verdadeiro amor. Se você quer apenas que seus amados sigam suas próprias idéias e ignora suas necessidades, não é um verdadeiro amor. É apenas desejo de possuir o outro e uma tentativa de atender às suas próprias necessidades, que não podem ser preenchidas deste modo.”

“Majestade, o povo de Kosala tem sofrimentos e aspirações. Se você não puder entender esses sofrimentos e aspirações, não será capaz de verdadeiramente amá-los. Todos os oficiais de sua corte têm sofrimentos e aspirações. Entenda esses sofrimentos e aspirações e descobrirá como ser capaz de dar-lhes felicidade. Graças a isto, eles se manterão leais a você por toda vida. A rainha, o príncipe e a princesa têm seus próprios sofrimentos e aspirações. Se você puder entendê-los, será capaz de trazer-lhes felicidade Quando cada pessoa desfruta de felicidade, paz e alegria, você mesmo conhecerá felicidade, paz e alegria. Este é o significado do amor de acordo com o Caminho da Iluminação.”

O rei Pasenadi estava profundamente emocionado. Nenhum outro mestre espiritual ou padre brâmane alguma vez abriu a porta de seu coração e permitiu a ele entender as coisas tão profundamente. A presença deste mestre, ele pensou, era de grande valor ao país. Ele queria ser um estudante do Buda. Depois de um momento de silêncio, ele olhou ao Buda e disse, “Eu te agradeço por jogar tanta luz sobre essas questões para mim. Mas há uma coisa que permanece ainda me aborrecendo. Você disse que o amor baseado no apego e desejo cria sofrimento e desespero, enquanto o amor baseado na compaixão traz apenas paz e felicidade. Mas ainda assim eu vejo que o amor baseado no caminho da compaixão mesmo não sendo egoísta ainda pode trazer dor e sofrimento. Eu amo meu povo. Quando eles sofrem devido a algum desastre natural como um tufão ou enchente, eu sofro também. Eu tenho certeza que se passa o mesmo com você. Certamente você sofre quando você vê alguém doente ou morrendo.”

“Sua questão é muito boa. Graças a esta pergunta você poderá entender mais profundamente a natureza da compaixão. Primeiramente, você deveria saber que o sofrimento causado por um amor baseado no desejo e no apego é milhares de vezes maior que o sofrimento que resulta da compaixão. É necessário distinguir entre os dois tipos de sofrimento – um que é inteiramente inútil e serve apenas para perturbar nossa mente e corpo e o outro que nutre a capacidade de cuidar e a responsabilidade. O amor baseado na compaixão pode prover a energia necessária para responder aos sofrimentos dos outros. O amor baseado no apego e desejo pode apenas criar ansiedade e mais sofrimento. Compaixão provê o combustível para ações que ajudam e para o serviço. Grande rei, compaixão é extremante necessária. A dor que resulta da compaixão pode ser uma dor útil. Se você não pode sentir a dor da outra pessoa, não é realmente humano.”

“Compaixão é o fruto do entendimento. Praticar o Caminho da Consciência é perceber a verdadeira face da vida. Esta verdadeira face é impermanência. Tudo é impermanente e sem um eu separado. Tudo deve um dia se extinguir. Um dia seu próprio corpo se extinguirá. Quando uma pessoa vê dentro da natureza impermanente de todas as coisas, seu modo de olhar se torna calmo e sereno. A presença da impermanência não perturba seu coração e mente. E, portanto os sentimentos de dor que resultam da compaixão não carregam a amarga e pesada natureza que outros tipos de sofrimento fazem. Pelo contrário, compaixão dá a pessoa grande força. Grande rei, hoje você ouviu algumas doutrinas básicas do Caminho da Libertação.”

(Do livro “Old Path White Clouds” sobre a vida do Buda – Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)

http://sangavirtual.blogspot.com/

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Tornar-se Iluminado






Ajaan Brahmavamso

Lá estava eu, em uma terra estranha,
tentando tanto,
abrindo mão de tanto – e para quê?
Não estava muito certo.

Quando era bem jovem, eu queria muito ser um maquinista. Meu avô havia levado meu irmão e a mim à Euston Station em Londres, local onde começou uma paixão por aqueles gigantes de aço pretos e verdes que sibilavam com tanta força. Não seria maravilhoso, eu sonhava, se um dia eu ...
Alguns anos depois eu queria desesperadamente me tornar iluminado. Havia lido sobre o assunto em livros. Para um jovem sonhador, a idéia de viver numa felicidade permanente e ao mesmo tempo salvar a humanidade exercia um apelo irresistível. Não seria maravilhoso, eu sonhava, se um dia eu ...
Quando ouvi pela primeira vez a história da iluminação do Buda, eu ainda estava a muitos copos de cerveja de distância de me tornar um monge. Eu era um estudante, e fazia muitas das atividades extravagantes que estudantes gostavam de fazer lá pelo final dos anos sessenta – e das quais se arrependeram nos anos setenta. Mas eu andei meditando mais ou menos – mais menos do que mais – por algum tempo, e comecei a perceber algumas mudanças inequívocas na minha vida diária. Um dia, assistindo a cerimônia de Vesak na Sociedade Budista local, enquanto o Venerável monge do Sri Lanka lia a história da iluminação, eu fiquei mais e mais inspirado e entusiasmado. Era especialmente agradável para mim a passagem na qual o futuro Buda, sentado ao pé da Figueira-dos-pagodes fez a resolução que sacudiu a terra:
Mesmo que meu sangue seque e meus ossos se tornem pó, não me moverei deste local até ter penetrado a Suprema e Completa Iluminação!
Uau! À medida que a história avançava, um pensamento começou a se solidificar na minha mente. Mal pude esperar pelo fim dos cânticos. Engoli impaciente uma xícara de chá, que na ocasião era nada menos que obrigatório, e corri de volta para meu quarto na faculdade. Já tinha ouvido muitas palestras sobre budismo, já tinha lido muitos livros sobre o assunto. Já tinha meditado por pelo menos um ano até aquele momento, pelo menos uma vez por semana, a maior parte das semanas. Se o Buda pôde, por que não eu?
Assim foi que eu, com a arrogância estúpida da juventude, um praticante novato que mal conseguia ficar sentado quieto por trinta minutos, decidi que era hora de tornar-me iluminado. É agora ou nunca, decidi. No dia seguinte eu fiz um teste. Tranquei a porta do quarto e sentei na almofada de meditação. Concentrei-me e pronunciei em um tom de voz baixo, claro e solene: Mesmo que meu sangue seque e meus ossos se tornem pó, não me moverei desta almofada até que eu, também, me torne iluminado.
Era isso. Chega de brincadeiras. Eu falava sério.
Quarenta minutos depois, estava em extrema agonia. Meu sangue estava tão liquido como sempre esteve e ainda não havia sinal de desintegração óssea, mas meus joelhos doíam pra danar! Mas o que me incomodava realmente era que já havia passado mais de meia hora e eu não tinha visto as luzes brilhantes e piscantes esperadas. Nem uma piscadinha que sugerisse eu estivesse chegando mais perto. Era muito deprimente e doloroso. Desisti. Levantei muito desapontado. Não ter me tornado iluminado estragou o dia.
Alguns anos mais tarde e um pouco mais de sensibilidade – embora só um pouco mais – eu estava no aeroporto de Londres sendo levado para a Tailândia por dois bhikkhus tailandeses. Estava indo para Bangkok para ser ordenado. Ainda lembro as palavras de despedida do sênior dos bhikkhus, então meu professor: “Por favor, volte quando se tornar iluminado”. Eu planejava ser um monge na Tailândia por dois anos no máximo. Contei para meus amigos e parentes que estaria de volta em dois verões. Afinal, dois anos inteiros como monge budista na Tailândia certamente era tempo suficiente, mesmo para aqueles de pouca inteligência, se tornarem iluminados. Quanto a mim, com um diploma universitário, não havia dúvida em minha mente de que voltaria para a Inglaterra em dois anos, iluminado. Resolvido esse problema, eu planejava casar e viver em uma comuna – claro, no País de Gales: havia pesquisado antes de partir.
Depois de dois anos de estrada, ficou claro que esse negócio de iluminação poderia não ser tão fácil. Por alguma razão, embora fosse um Ocidental com um diploma de uma renomada universidade, eu estava agindo de modo mais estúpido do que os monges tailandeses, que tinham apenas a quarta série de uma escola de vilarejo. Minha presunção estava sendo duramente golpeada. O estranho era que, mesmo não sendo ainda um iluminado, eu estava experimentando a paz, a simplicidade e a disciplina da vida monástica e não queria desistir. O que pretendia fazer na comuna no País de Gales havia perdido seu caráter sedutor.
Em meu quarto retiro das chuvas eu estava fazendo tudo que podia. Rumores haviam chegado à Tailândia de que a Chithurst House fora comprada, uma Sangha havia sido estabelecida na Inglaterra e eles precisavam de mais bhikkhus. Este seria um excelente momento para tornar-se iluminado. Eu estava em um monastério muito calmo. Minha prática meditativa estava bem estabelecida. Todos os sinais eram favoráveis. Então, aconteceu!
Praticando a meditação andando no final da tarde, minha mente calma depois de horas sentado, subitamente compreendi a causa de todos os problemas e meu coração imediatamente sentiu a alegria da libertação. Ao meu redor, tudo parecia brilhar. Todo meu ser se encheu de felicidade. Energia e clareza eram abundantes. Embora fosse tarde da noite, sentei em meditação, perfeitamente atento, perfeitamente quieto. Então deitei para descansar, e dormi assim levemente por algumas horas. Levantei às 3h da manhã e fui o primeiro a chegar ao salão de grama para a meditação matinal. Sentei até o nascer do sol sem o mínimo de esforço e sem sonolência. Era isso! Eu estava incrivelmente feliz por ser um iluminado. Pena que não durou muito.
O monastério no qual isso aconteceu era muito pobre e a comida muito tosca. Era o tipo de monastério do nordeste da Tailândia no qual você fica feliz de comer apenas uma refeição por dia – encarar tal provação duas vezes por dia seria insuportável! Porém, na manhã que se seguiu a minha experiência de “libertação”, a comida estava um pouco melhor. Junto com o rotineiro peixe podre com curry – que é feito de pequenos peixes cozidos que foram guardados sem muita higiene até estragarem – havia também uma caçarola de carne de porco com curry. Naquele dia, até mesmo o abade do monastério estava visivelmente incomodado com o odor do peixe cozido e pegou uma porção enorme do pote com carne de porco. Eu não me importei; era o segundo na fila e havia bastante lá para mim. Porém, não cheguei até a panela de porco. O abade derramou o que havia sobrado da caçarola de porco na panela do peixe podre, misturando tudo, dizendo que iria se misturar no estômago de qualquer maneira. Eu fiquei enfurecido! Que grande hipócrita! Se ele realmente pensava assim, Por que não misturou os cozidos antes de pegar sua parte? Olhei furiosamente para a caçarola que ele me entregou – pedaços emborrachados de peixe fedido nadando lado a lado com minha deliciosa carne de porco – minha única refeição da sorte arruinada. Oh! Aquele abade, como eu estava furioso com ele! Furioso!
Então, um pensamento me atingiu com força, ou melhor, me esmagou: talvez eu não estivesse iluminado. Seres iluminados não sentem raiva. Arahants não se importam se comem peixe pútrido ou um saboroso pedaço de carne de porco. Tinha que admitir que estava com raiva, logo, eu não era um iluminado. Que decepção. Completamente deprimido, despejei uma concha de peixe podre com porco em minha tigela. Estava demasiado desapontado para notar o sabor da comida naquele dia.
A despeito desses obstáculos vindos do Dhamma, como indigestão, (uma capacidade limitada para assimilar os ensinamentos), os anos que se seguiram como bhikkhu definitivamente produziram resultados tais como mais tranqüilidade, clareza e alegria. Eram os insights simples, aqueles que surgem sem alarde, que se mostravam mais efetivos. Meu desejo de ser um iluminado me parecia agora similar ao desejo infantil de ser maquinista de trem, ou minhas ambições posteriores de ser o primeiro astronauta inglês ... um jogador profissional de futebol ... um guitarrista numa banda de rock ... o melhor amante em todo o colégio (me sinto muito envergonhado em mencionar minhas outras aspirações). De certa forma, desejar ser um iluminado era ainda mais tolo. Pelo menos eu tinha alguma idéia do que era dirigir um trem. Quanto à iluminação, eu não tinha tanta certeza do que se tratava! E sempre que eu tentava descobrir, perguntando aos monges mais experientes, nunca conseguia uma resposta direta. Então, lá estava eu, num país muito estranho, comendo peixe podre e coisas muito piores, suportando mosquitos insaciáveis e um calor sem fim, fazendo tanto esforço, abrindo mão de tanto – e para quê? Eu não tinha muita certeza. Então, a única coisa racional a fazer era desistir de tentar ser um iluminado até que eu soubesse o que era a iluminação! Eu não queria desistir de ser um bhikkhu, isso eu entendia, fazia sentido. Eu precisava desistir de perseguir minhas fantasias, e minha idéia de iluminação era a mais grandiosa.
Depois que o insight acontece, raramente pensamos que agora somos sábios, pois ficamos subjugados pelo pensamento de quão estúpidos fomos. Como pude ser tão estúpido? Os textos sagrados budistas e tantos bons professores enfatizam que TORNAR-SE É SOFRIMENTO – tornar-se qualquer coisa. Tornar-se é o que o ego faz todos os dias. Tornar-se molda a identidade. Tornar-se é a “pele” que mantém coesa a bolha do eu. Pare com todo tornar-se e a ilusão se despedaça.
Foi assim que terminou o meu tornar-se iluminado. Agora a questão era QUEM é que deseja tornar-se iluminado, se é que havia alguém? Eu investiguei o não-eu, que é algo mais esclarecedor do que tentar tornar-se iluminado. Mas as pessoas ainda me perguntam, como fazem com outros bhikkhus, a questão fundamental: você é iluminado? Agora eu tenho uma resposta esplêndida, plagiada do falecido Venerável Ananda Mangala Mahanayakathera, (sei que ele não se importaria), que, excelente professor que era, deu a réplica perfeita para essa questão:

Não senhor! - Ele disse –
eu não sou iluminado,
mas sou altamente eliminado!

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