domingo, 2 de outubro de 2011

É só respirar.



Na sala vazia e silenciosa, dois monges zen, com seus mantos e cabeças raspadas, estão sentados no chão, lado a lado, pernas cruzadas. Depois de alguns instantes, o mais jovem lança um olhar surpreso e irônico para o mestre. Sereno, o velho monge comenta: “É só isso, mesmo. Não vai acontecer mais nada”. Não se trata de uma cena real. É só uma charge publicada na renomada revista americana The New Yorker, brincando com o novo hábito americano de meditar regularmente, como fazem os orientais há milhares de anos. A fina ironia da charge, no entanto, tem a ver com a realidade. Embora singela, a atitude de sentar sobre uma almofada (ficar em posição de lótus exige um preparo de monge) e ficar atento à própria respiração é tão fora de propósito em nossa rotina atabalhoada que é fácil se identificar com o jovem monge, perplexo e irônico, ao encará-la pela primeira vez. Comigo não foi diferente.
Na primeira vez em que me detive a acompanhar o compasso da respiração, o sentimento inicial foi de surpresa. Espantei-me pela rapidez com que tudo caminhou para a inatividade. O turbilhão de pensamentos que ocupava minha mente (uma conta para pagar, uma cena do filme que vi no dia anterior, uma ótima piada para contar aos amigos) foi desaparecendo sem que eu me desse conta. O incômodo da perna dormente, pressionada pela flexão, logo foi substituído por um inesperado prazer, prazer de simplesmente respirar. Então, de repente, foi como se tudo houvesse parado nos primeiros segundos depois de acordar, aqueles instantes em que você se sente presente e alerta, mas com a cabeça vazia. Enfim, aqueles poucos segundos do dia em que nada acontece.
Foi então que tudo ficou meio irônico: o êxtase, o delicioso estranhamento que entupiu meus sentimentos, acabou em um segundo! E no instante seguinte todos os pensamentos voltaram: a conta, o filme, a piada e mais um monte de coisas. Rindo comigo mesmo, me perguntei – talvez como um jovem monge perplexo e desconfiado – se não haveria algo mais divertido para fazer naquele instante. Mas logo me peguei novamente de olhos fechados.
Quer dizer que meditar é só parar e não pensar em nada? É. Como afirmam os especialistas, é um não-fazer. Mas, acredite, não é fácil. Não para ocidentais como eu e você, acostumados com a idéia de que, para resolver um assunto, o primeiro passo é pensar bastante nele. Na meditação, a idéia é exatamente o oposto: parar de pensar, por mais bizarro que isso pareça.
A novidade é que, mesmo parecendo alienígena, a meditação conquista cada vez mais adeptos no Ocidente. Dez milhões de americanos meditam regularmente em casa e em hospitais, escolas, empresas, aeroportos e até em quiosques de internet. Entre os milhões de meditadores americanos estão celebridades de grosso calibre, como o dirigente da Ford, Bill Ford, e o ex-vice-presidente Al Gore. No Brasil, a exemplo da Hollywood dos anos 90, a meditação entrou para a rotina de estrelas – como a atriz Christiani Torloni e a apresentadora Angélica, que recorreu à prática para livrar-se de uma crise de síndrome do pânico – e virou ferramenta diária de produtividade em empresas e até em alguns círculos do poder. O prefeito de Recife, João Paulo, por exemplo, só inicia o expediente após meditar por alguns minutos.
Mas como é que algo assim, na contramão do pragmatismo moderno, consegue empolgar tanta gente? Como pode haver gente capaz de pagar caro para participar de sessões de meditação – ou seja, para ficar sentado em silêncio em uma sala quase sem móveis?
Sem dúvida há muita gente desiludida com o modo de vida ocidental (a destruição do meio ambiente, a vida cada vez mais solitária das grandes cidades e a competição pelo ganha-pão). Mas esse contingente não é capaz de explicar, sozinho, a explosão da meditação. A verdade é que a ciência resolveu se debruçar sobre os efeitos dessa prática, e as notícias dos laboratórios de pesquisa cada vez convencem mais pessoas a relaxar em posição de lótus.
O principal resultado dessas pesquisas pode ser resumido em duas palavras: meditação funciona. Ou seja, por mais estranho que pareça aos ratos de academia que se esfalfam em exercícios para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, não fazer nada por alguns minutos diariamente tem efeitos palpáveis, reais e mensuráveis no corpo. E o melhor: só apareceram efeitos positivos (pelo menos até agora). Ou seja, aquilo que os adeptos da tradicional medicina chinesa e os mestres budistas viviam repetindo (com um sorriso bondoso no rosto) começa a ser comprovado por alguns renomados centros de pesquisa ocidentais, como as universidades Harvard, Columbia, Stanford e Massachusetts, nos Estados Unidos, e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Brasil.
É difícil listar as descobertas porque as pesquisas sobre a meditação alcançaram a maioridade recentemente. Mais precisamente no ano 2000, quando o líder do budismo tibetano, o Dalai Lama (sempre ele), encontrou-se com um grupo de psicólogos e neurologistas na Índia e sugeriu que os cientistas estudassem um time de craques em meditação durante o transe, para ver o que ocorria com seus corpos. Os cientistas abraçaram o desafio e, desde então, as pesquisas não param de produzir surpresas. Já se sabe, por exemplo, que meditar afeta, de fato, as ondas cerebrais. Sabe-se também que isso tem efeitos positivos sobre o sistema imunológico, reduz a tensão e alivia a dor. “Três décadas de pesquisas mostraram que a meditação é um bom antídoto ao estresse”, diz o jornalista e psicólogo americano Daniel Goleman, autor dos livros Inteligência Emocional e Como Lidar com as Emoções Destrutivas, este o relato do encontro dos cientistas com o Dalai Lama.
“Agora, o que está mira dos pesquisadores é saber como a meditação pode treinar a mente e reformatar o cérebro”, afirma Daniel.
A piada dos dois monges, lá no início desta reportagem, não é gratuita. Afinal, faz séculos que se pratica meditação no Oriente, por recomendação religiosa (veja quadro sobre as meditações religiosas na página 62). O detalhe é que agora a orientação também é médica. Nos anos 70, quando a prática começou a se espalhar pelo Ocidente, impulsionada pelo movimento hippie, o cantor e compositor brasileiro Walter Franco cantava que tudo era uma questão de “manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”. Hoje, os versos de Walter poderiam fazer parte de uma receita médica, de um treinamento em uma grande empresa ou até mesmo de um programa para a recuperação de presos.
“Focalizar a atenção no mundo interior, como se faz na meditação, é uma situação terapêutica”, diz o psicólogo José Roberto Leite, coordenador do instituto de medicina comportamental da Unifesp. “Queremos avaliar o alcance dessa prática e isolá-la de seu aspecto supersticioso.” Por trás dessa intenção está o fato de que as causas de doenças mudaram muito nos últimos 100 anos. No passado, os males eram causados principalmente por microorganismos. As pessoas morriam de poliomielite, de sarampo, de varíola e outras doenças causadas por bactérias e vírus. Mas isso mudou, graças às melhorias em saneamento e à criação de antibióticos e vacinas. “Hoje, a maioria das doenças é causada por coisas como hipertensão, obesidade e dependência química, que estão ligadas a padrões inadequados de comportamento”, diz José Roberto. Ou seja, o que mata hoje são os maus hábitos.
E são esses maus hábitos que se pretende combater pela meditação, também conhecida pelo pomposo nome de “prática contemplativa”. Apaziguar a mente, os cientistas estão descobrindo agora, pode reduzir o nível de ansiedade e corrigir comportamentos pouco saudáveis. O cardiologista Herbert Benson, da Universidade Harvard, um dos maiores pesquisadores da meditação e do poder das crenças na promoção da saúde, chega a estimar em seu livro Medicina Espiritual que 60% das consultas médicas poderiam ser evitadas se as pessoas apenas usassem a mente para combater as tensões causadoras de complicações físicas.
Mas, afinal, como é que se medita e o que acontece durante a prática contemplativa? Bem, há um leque de modalidades para quem deseja meditar, mas a receita básica é a mesma: concentração. Vale concentrar-se na respiração, uma imagem (um ponto ou uma imagem de santo), um som ou na repetição de uma palavra (o famoso mantra, como “ohmmm”, por exemplo). Parar de pensar equivale a ficar quase que exclusivamente no presente. Faz sentido. Os pensamentos são feitos basicamente de duas substâncias: as idéias e experiências que ouvimos, vivemos ou aprendemos no passado e os planos e apreensões que temos para o futuro. É naqueles raros momentos em que o meditador consegue livrar-se desses ruídos que surgem os sentimentos comuns nas descrições de iogues famosos: sensação de estar ligado com o Universo ou ter uma superconsciência do mundo. Meditar é, portanto, concentrar-se em cada vez menos coisas, inibindo os sentidos e esvaziando a mente. Tudo isso sem perder o estado de alerta, ou seja, sem dormir.
Mas como saber se deu certo? Como saber se você meditou? Essa é a melhor parte da história: não há nota ou avaliação. A não ser que você medite plugado em um aparelho de eletroencefalograma para saber se suas ondas cerebrais se alteraram. Como isso é pouco prático, a melhor medida para seu desempenho é você mesmo. Só você pode dizer o que sentiu e se foi bom.
BIOLOGIA DO ZEN
Os efeitos da meditação sobre o corpo são surpreendentes. Nos primeiros estudos sobre a meditação, na década de 60, o cardiologista Benson, de Harvard, e outros pesquisadores submeteram meditadores a experimentos nos quais a pressão arterial, os ritmos cerebrais e cardíacos e mesmo a temperatura da pele e do reto eram monitorados. Constatou-se então que, enquanto meditavam, eles consumiam 17% menos oxigênio e seu ritmo cardíaco caía para incríveis três batimentos por minuto (a média para pessoas em repouso é de 60 b.p.m.). Isso acontecia quando as ondas cerebrais alcançavam o ritmo teta, mais lento e poderoso, no qual a mente atingiria o estado de “superconsciência” relatado pelos iogues e caracterizado por insights e alegria.
As ondas teta vibram a apenas quatro ciclos por segundo. Para se ter uma idéia, quando estamos ativos o cérebro emite ondas beta, de oscilação em torno de 13 ciclos por segundo. Você conhece essa sensação causada pelas ondas teta. É aquele embotamento dos sentidos que surge nos segundos que antecedem o sono. Naquele momento, nosso cérebro funciona no ritmo teta. Mas os meditadores pesquisados não estavam dormindo. Ao contrário, estavam bem acordados e serenos.
Mais tarde, percebeu-se também que no momento da meditação o fluxo sanguíneo diminuía em quase todas as áreas cerebrais, mas aumentava na região do sistema límbico, o chamado “cérebro emocional”, responsável pelas emoções, a memória e os ritmos do coração, da respiração e do metabolismo. O cardiologista Benson, que escreveu um clássico sobre o tema nos anos 90 – A Resposta do Relaxamento – , tomou emprestado um pouco da humildade oriental e disse que seu trabalho se resumiu a explicar biologicamente técnicas conhecidas há milênios.
Desde então, uma série de novas pesquisas, respaldadas em imagens da intimidade neurológica feitas por tomógrafos sofisticados que retratam o cérebro em funcionamento, levantou o véu sobre outros segredos. Um dos estudos mais abrangentes e reveladores foi realizado por Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. A idéia era registrar o que ocorre com o cérebro quando se alcança o clímax em práticas místicas como a meditação e a oração. Newberg rastreou a atividade cerebral de um grupo de budistas em meditação profunda e de um grupo de freiras franciscanas rezando fervorosamente.
Ele constatou uma significativa alteração no lobo parietal superior, localizado na parte anterior do cérebro e responsável pelo senso de orientação – a capacidade de percepção do espaço e do tempo e da própria individualidade. Segundo as descobertas de Newberg, à medida que a contemplação se torna mais profunda, a atividade na região diminui aos poucos até cessar totalmente no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de unicidade com o Universo, cerca de uma hora após o início da concentração. Nesse instante, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal desligam os mecanismos das funções visuais e motoras e o meditador ou devoto perde a noção do “eu” e sente-se prazerosamente expandido, além de qualquer limite. É o nirvana. Ou seja, Newberg registrou em seus aparelhos a imagem de um cérebro literalmente no paraíso.
Mas não é só isso. As imagens revelaram que, durante a experiência, os lobos temporais (sede das emoções no cérebro) tiveram sua atividade redobrada, o que explicaria a enorme influência da meditação sobre as emoções e a personalidade dos praticantes. Newberg não teve dúvida em sua conclusão: as sensações de elevação e contato com o divino vivenciadas por budistas e freiras são um fenômeno real, baseado em fatos biológicos.
Mas há quem veja tudo isso com uma certa desconfiança. “Ao que parece, estamos diante de um fenômeno de marketing”, disse Richard Sloan, psicólogo do Centro Médico Presbiteriano de Columbia, em Nova York, comentando o encontro do Dalai com os cientistas, há três anos. Segundo Richard, é discutível se o impacto da meditação sobre o sistema nervoso e a saúde tem um efeito profundo e duradouro ou apenas superficial e efêmero. Então, está na hora de conferir o que os estudos dizem a respeito.
MENTE QUIETA, CORPO SAUDÁVEL
A meditação ajuda a controlar a ansiedade e a aliviar a dor? Ao que tudo indica, sim. Nessas duas áreas os cientistas encontraram as maiores evidências da ação terapêutica da meditação, medida em dezenas de pesquisas. Nos últimos 24 anos, só a Clínica de Redução do Estresse da Universidade de Massachusetts monitorou 14 mil portadores de câncer, aids, dor crônica e complicações gástricas. Os técnicos descobriram que, submetidos a sessões de meditação que alteraram o foco de sua atenção, os pacientes reduziram o nível de ansiedade e diminuíram ou abandonaram o uso de analgésicos. Ou seja, eles aprenderam a entender a dor, em vez de combatê-la. Com isso, deixaram de antecipá-la ou amplificá-la por meio do medo de vir a senti-la. Sim, porque boa parte da sensação dolorosa é psicológica, fabricada pelo medo da dor. Resultado: as queixas de dor, segundo o diretor da clínica, Jon Kabat-Zinn, diminuíram, em média, 40%.
No hospital da Unifesp, em São Paulo, a meditação é indicada para pacientes com fibromialgia (dores nos músculos e articulações), fobias e compulsões. Ali, estudo recente dirigido pela doutora em biologia Elisa Harumi Kozasa atestou a melhoria da agilidade mental e motora em ansiosos e deprimidos que, durante três meses, meditaram sob a orientação de instrutores indianos. Outra pesquisa, coordenada pelas psicólogas Márcia Marchiori e Elaine de Siqueira Sales, deve comparar nos próximos meses os efeitos terapêuticos da meditação com os das técnicas de relaxamento físico.
O desempenho antiestresse da meditação, segundo estudos das universidades americanas Stanford e Columbia, acontece porque a mente aquietada inibe a produção de adrenalina e cortisol – hormônios secretados nas situações de estresse – , ao mesmo tempo que estimula no cérebro a produção de endorfinas, um tranqüilizante e analgésico natural tão poderoso quanto a morfina e responsável pela sensação de leveza nos momentos de alegria.
Já parece motivo suficiente para render-se aos mantras, mas tem mais. Investigações realizadas na Universidade Wisconsin, nos Estados Unidos, acrescentaram que meditar também melhora a ação do sistema imunológico, que defende o organismo contra o ataque de microorganismos (bactérias, vírus e outros germes). A experiência comparou dois grupos de voluntários – um constituído de pessoas que meditavam havia alguns meses e o outro de não-meditadores. Primeiro constatou-se que os meditadores tiveram um aumento na atividade da área cerebral relacionada às emoções positivas. Então, ambos os grupos foram vacinados contra gripe e submetidos a medições quatro semanas e oito semanas depois. O pessoal habituado a entoar mantras apresentou um número bem maior de anticorpos, o que sugere que seus sistemas de defesa estavam mais ativos.
Em abril passado, durante um encontro da Associação Americana de Urologia, anunciou-se que a meditação ajuda a conter o câncer da próstata. E alguns pesquisadores relataram que mulheres com câncer de mama que passaram a meditar tiveram elevação no nível de células imunológicas que combatem tumores. Mas essas descobertas estão longe de alcançar a unanimidade entre os cientistas. O psiquiatra americano Stephen Barret, um dos principais críticos às terapias alternativas nos Estados Unidos, desconfia desses resultados. “Meditar pode aliviar o estresse, mas sua ação nunca irá além disso no tratamento de doenças graves, como o câncer.” Mesmo um entusiasta da técnica, como Herbert Benson, não descarta os tratamentos ocidentais tradicionais. Para ele, a saúde e a longevidade no mundo moderno serão, cada vez mais, resultado de um tripé formado por remédios, cirurgias e cuidados pessoais, incluindo-se aqui a meditação e todo o poder catalisador das crenças nas reações orgânicas.
O CÉREBRO REPROGRAMADO
Mas ainda há muita coisa para ser descoberta sobre o mantra e os pesquisadores estão debruçados sobre os meditadores, tentando entender como é que um ato tão simples causa tantas modificações. Estudos como o de Wisconsin, que ligam disciplina mental a emoções positivas e ao bom desempenho do sistema imunológico, atiçam o interesse dos cientistas em avaliar o real poder da meditação na reformatação das funções cerebrais. E o que eles estão descobrindo é que, com suficiente prática, os neurônios podem reprogramar a atividade dos lobos cerebrais, especialmente a área relacionada à concentração e à orientação.
Não dá para negar que, sobre concentração, o Dalai Lama e os orientais, com sua atenção aos detalhes e sua atenção extrema, têm muito a ensinar aos ocidentais. “Só há pouco a psiquiatria ocidental reconheceu a existência do transtorno do déficit de atenção (uma síndrome caracterizada pela dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração e impulsividade), mas há milhares de anos tradições como o budismo afirmam que todos sofremos desse distúrbio com mais ou menos intensidade”, diz o psiquiatra Roger Walsh, da Universidade da Califórnia em Irvine.
A possibilidade de alterar em profundidade o cérebro, apenas meditando, talvez possa no futuro ajudar a prevenir ou a superar complicações vasculares a custo bem mais baixo que o das cirurgias. Ou a romper condicionamentos e redirecionar as mentes de indivíduos anti-sociais – o que, aliás, vem sendo testado com relativo êxito. Numa experiência na Kings County North Rehabilitation Facility, penitenciária próxima a Seattle, nos Estados Unidos, um grupo de prisioneiros condenados por crimes relacionados ao consumo de droga e álcool praticou vippassana (meditação budista com foco inicial na respiração, seguida de análise existencial) 11 horas por dia durante dez dias. Após voltarem para casa, apenas 56% deles reincidiram na criminalidade no prazo de dois anos, um índice considerado bom comparado aos 75% de reincidência entre os que não meditaram.
Já na Universidade Cambridge, nos Estados Unidos, um estudo constatou a redução de até 50% nas recaídas de pacientes com depressão crônica que passaram a meditar regularmente. A doença é acompanhada por uma diminuição no nível do serotonina no cérebro, processo geralmente revertido com o uso de antidepressivos, como Prozac. A meditação aumenta a produção desse neurotransmissor, funcionando como um antidepressivo natural. Em Cotia, em São Paulo, um programa de meditação para crianças carentes, conduzido pela monja Sinceridade no Templo Zu Lai (sede da primeira universidade budista do país), tem resultado em mudanças no comportamento de 128 meninos de favelas. “Eles melhoraram significativamente a concentração. E a convivência social com eles tornou-se mais tranqüila”, diz ela.
FAST FOOD MENTAL?
Toda essa popularidade, porém, não permite afirmar que a meditação continuará mantendo alguma identidade com a prática ancestral do Oriente. Além de sua gradual transformação em técnica laica, ocorre neste momento uma rápida adaptação do modo de usá-la ao estilo de vida ocidental.
Em vez de contemplações que duram uma eternidade (você aí teria pique para ficar quatro horas sentado no chão, imóvel, como faz diariamente o Dalai Lama?), tornou-se padrão a meditação de 20 minutos duas vezes ao dia. Ainda assim, isso parece exigir uma boa dose de sacrifício de inquietos habitantes de metrópoles como Nova York e São Paulo. No próximo ano, o autor Victor Davich lançará nos Estados Unidos o livro Eight Minutes that Will Change your Life (“Oito Minutos que Mudarão sua Vida”) no qual defenderá um tipo de meditação “fast food” de não mais que oito minutos. Segundo ele, esse é o tempo que os americanos estão acostumados a se concentrar diariamente: os blocos de programas de TV duram exatamente isso, entre um comercial e outro. Da mesma forma, os mantras sonoros em sânscrito das meditações místicas foram substituídos por mantras mentais, baseados em palavras escolhidas ao acaso.
Tais ajustes são vistos com reservas por iogues, praticantes tradicionalistas e até instrutores mais liberais, como a americana Susan Andrews, para quem é saudável tirar a meditação “das nuvens do esoterismo” e aproximá-la da ciência. “Relaxamento e pensamento positivo são efeitos colaterais da meditação, não sua meta”, diz Susan. “O grande alvo é atingir a hiperconsciência, o samadhi, aquele estado de plenitude, iluminação e êxtase indescritível.” A questão é que para chegar lá o meditador precisa deixar de lado a idéia de que meditar não implica qualquer esforço, cuidando de manter a concentração firme e afinada por pelo menos uma hora. E isso, admitamos, é algo que também exige um preparo de monge.

Passo a passo
Há vários maneiras de meditar, mas a regra básica é a mesma: atenção
Sentado
No chão ou em uma cadeira, mantenha a coluna ereta e concentre-se nos movimentos da respiração, observando a entrada e a saída do ar pelas narinas. Se preferir, concentre-se num mantra, que pode ser qualquer palavra, uma frase ou apenas um murmúrio. Repita seu mantra a cada expiração. Fechar os olhos pode ajudar. Se ficar de olhos abertos, concentre o olhar em um ponto.
Em pé
Posicione-se junto a uma fileira de árvores e tente se sentir como uma delas. Concentre-se na respiração e imagine seus pés desenvolvendo raízes no chão.
Caminhando
É uma boa saída para quem, por algum motivo, não consegue ficar imóvel. O segredo é focar as pisadas, vendo-as como um todo ou como segmentos do movimento, que pode ser lento ou acelerado. Melhor caminhar em círculo, sem a expectativa de um ponto de chegada.
Visualização
Crie uma imagem significativa para você – pode ser um símbolo religioso ou uma paisagem – e concentre-se nela.

Entre o céu e os neurônios
Meditação não é coisa só de budistas. Várias religiões têm sua versão dessa prática
Hinduísmo
Textos sagrados do período védico, entre 2000 e 3000 a.C., fazem referências a mantras e contemplações. A meditação é uma das principais práticas do conjunto de escolas religiosas da Índia conhecido como hinduísmo.
Budismo
Foi meditando debaixo de uma figueira que o príncipe Sidarta Gautama alcançou a iluminação, por volta de 588 a.C., tornando-se o Buda. Prática fundamental no budismo, a meditação é vista, sobretudo, como um método de examinar a realidade pessoal e eliminar condicionamentos.
Cristianismo
Os chamados padres do deserto, da região de Alexandria, no Egito, é que consolidaram a meditação como hábito cristão no século 4. A prática, disseminada nos monastérios, desde o século passado vem sendo adotada por cristãos leigos.
Judaísmo
Os praticantes da Cabala, tradição esotérica judaica, difundiram a meditação entre seus adeptos na Europa, por volta do ano 1000, como uma forma de entrar em comunhão com Deus.
Islamismo
Também por volta do ano 1000, os sufis, que constituem o segmento místico dos muçulmanos, incorporaram a meditação aos seus rituais, os quais incluem o êxtase místico por meio da dança.
Independentes
Em 1967, um encontro dos Beatles com o guru Maharishi Mahesh Yogi iniciou a expansão da meditação transcendental no Ocidente e o florescimento de uma infinidade de gurus e técnicas meditativas que, desde então, atraem adeptos em toda parte.

Para saber mais
Na livraria
A Mente Alerta, Jon Kabat-Zinn, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001
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Fonte:
http://super.abril.com.br/ciencia/so-respirar-444172.shtml


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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Os Cinco Obstáculos Mentais e Sua Superação. Parte 1





Apartir de hoje estarei postando partes do texto "os Cinco Obstáculos Mentais e a Sua Superação".

Textos selecionados do Cânone em Pali e dos comentários.
Compilado e traduzido por Nyanaponika Thera

A inabalável libertação da mente é a suprema meta na doutrina do Buda. Aqui, libertação significa: a libertação da mente de todas as limitações, amarras e laços que a amarram à Roda do Sofrimento, ao Ciclo de Renascimentos. Isso significa: limpar a mente de todas as impurezas; remover todos os obstáculos que barram seu progresso da consciência mundana (lokiya) para a supramundana (lokuttara-citta), isto é, para o estado de Arahant.
São muitos os obstáculos que bloqueiam o progresso no caminho espiritual, mas existem cinco em particular, conhecidos pelo termo pali nivarana, que são mencionados frequentemente nos textos Budistas:

1. Desejo sensual (kamacchanda),
2. Má-vontade (byapada),
3. Preguiça e torpor (thina-middha),
4. Inquietação e ansiedade (uddhacca-kukkucca),
5. Dúvida (vicikiccha).

Eles são chamados de "obstáculos" porque bloqueiam e envolvem a mente de várias formas, obstruindo seu desenvolvimento (bhavana). De acordo com os ensinamentos Budistas, o desenvolvimento espiritual é duplo: através da tranquilidade (samatha-bhavana) e através do insight (vipassana-bhavana). A tranquilidade é ganha através da completa concentração da mente durante os estados de absorção meditativa (jhana). Para alcançar tais estados, a superação dos cinco obstáculos, pelo menos temporariamente, é uma condição preliminar. É justamente nesse contexto de se atingir os jhanas que o Buda menciona os cinco obstáculos em seus discursos.

Há cinco fatores mentais constituintes que são os principais representantes do primeiro jhana, chamados portanto de fatores de absorção (jhananga). De acordo com os comentários, cada um dos cinco obstáculos é especificamente prejudicial a um desses fatores, impedindo seu desenvolvimento e refinamento requerido para os jhanas; por outro lado, o cultivo desses fatores além do nível comum funciona como um antídoto contra os obstáculos, preparando o caminho para os jhanas. Nesse texto é indicada a relação entre esses dois grupos de cinco na seção com o título do obstáculo correspondente.
Não somente os jhanas, mas também os níveis menores de concentração mental são bloqueados pelos cinco obstáculos. Portanto a concentração de "acesso" ou "vizinhança" (upacarasamadhi), é um estágio preliminar para a total absorção (appana) que ocorre nos jhanas. A concentração momentânea (khanikasamadhi) também está afastada da presença dos obstáculos. Além desses estados superiores de desenvolvimento mental, qualquer tentativa sincera de se ter visão clara e um modo de vida puro será seriamente afetada pela presença dos cinco obstáculos.
Essa influência generalizada e danosa dos cinco obstáculos revela uma necessidade urgente de se diminuir o poder deles através de esforços contínuos. Ninguém deve acreditar que é suficiente prestar atenção nos obstáculos somente durante os momentos em que se está sentado para meditação. Esse esforço de última hora para suprimir os obstáculos raramente terá êxito a não ser que seja auxiliado pela dedicação prévia durante a vida diária.

Alguém que aspire sinceramente à inabalável libertação da mente deveria, portanto, escolher uma "base de trabalho" com importância direta e prática: um kammatthana no seu sentido mais amplo, em que está baseada toda a estrutura de sua vida. Agarrar-se a essa "base de trabalho", nunca perdê-la de vista por muito tempo, isso, por si só, já será um progresso considerável e encorajador no controle e desenvolvimento da mente, porque dessa forma, as forças direcionadoras da mente serão consideravelmente fortalecidas. Alguém que escolheu a superação dos cinco obstáculos como "base de trabalho" deveria examinar qual dos cinco é o mais forte no seu caso pessoal. Então essa pessoa deve observar cuidadosamente como, e em que ocasiões, eles geralmente aparecem. Essa pessoa também deve, posteriormente, conhecer os estados mentais benéficos que permitem que cada um desses obstáculos possa ser afastado e, finalmente superado; também deve-se examinar a própria vida em busca de oportunidades para desenvolver essas qualidades, que, nas páginas seguintes, foram indicadas sob as faculdades espirituais (indriya), os fatores de absorção (jhananga) e os fatores da iluminação (bojjhanga). Em alguns casos foram adicionados temas de meditação, o que irá ajudar na superação dos respectivos obstáculos.
Entretanto, para um "mundano" (puthujjana), somente uma suspensão temporária e enfraquecimento parcial dos obstáculos pode ser alcançado. A final e completa erradicação só ocorre ao se alcançar os estágios do despertar (ariyamagga).

- A dúvida é eliminada no primeiro estágio, o caminho de entrada na correnteza (sotapatti-magga).
- O desejo sensual, a má-vontade e a ansiedade são eliminados no terceiro estágio, o caminho de não-retorno (anagami-magga).
- A preguiça, o torpor e a inquietação são eliminadas no caminho de Arahant (arahatta-magga).

A recompensa da batalha contra os obstáculos não é somente limitada a tornar possível uma concentração meditativa mais superficial ou profunda, mas também, todo passo dado no enfraquecimento desses obstáculos nos leva para mais perto dos estágios do despertar, onde a superação dos obstáculos é inabalável.
Apesar da maior parte dos textos que seguem, traduzidos dos Discursos do Buda e dos comentários, se dirigirem aos monges, eles também são válidos para aqueles que vivem em família. Assim como os Antigos Mestres dizem: "O bhikkhu (monge) é mencionado aqui como um exemplo daqueles dedicados à prática do Ensinamento. Qualquer um que siga tal prática se inclui no termo 'monge'".

Os Cinco Obstáculos
I. Textos gerais

"Esses cinco são obstáculos, obstruções, corrupções da mente, enfraquecedores da sabedoria. Quais cinco?
O desejo sensual é um obstáculo, uma obstrução, uma corrupção da mente, enfraquecedor da sabedoria. A má-vontade é um obstáculo, uma obstrução ... A preguiça e o torpor são um obstáculo, uma obstrução ... A inquietação e a ansiedade são um obstáculo, uma obstrução ... A dúvida é um obstáculo, uma obstrução, uma corrupção da mente, enfraquecedora da sabedoria.
E quando um bhikkhu não abandonou esses cinco obstáculos, obstruções, corrupções da mente, enfraquecedores da sabedoria, quando ele não possui força e tem fraco discernimento, que ele entenda aquilo que é benéfico para ele mesmo, que ele entenda aquilo que é benéfico para os outros, que ele entenda aquilo que é benéfico para ambos, que ele alcance um estado humano superior, que ele realize o verdadeiro nobre conhecimento e visão – isso é impossível.
Agora, quando um bhikkhu abandonou esses cinco obstáculos, obstruções, corrupções da mente, enfraquecedores da sabedoria, quando ele tem forte discernimento, que ele entenda aquilo que é benéfico para ele mesmo, que ele entenda aquilo que é benéfico para os outros, que ele entenda aquilo que é benéfico para ambos, que ele alcance um estado humano superior, que ele realize o verdadeiro nobre conhecimento e visão – isso é possível."

* * *

"Aquele cuja mente é afetada por uma cobiça desenfreada fará aquilo que ele não deveria fazer e negligenciará o que ele deveria fazer. E dessa forma, seu bom nome e felicidade virão à ruína.
Aquele cuja mente é afetada pela cobiça... pela preguiça e torpor... pela inquietação e ansiedade... pela dúvida fará aquilo que ele não deveria fazer e negligenciará aquilo que ele deveria fazer. E dessa forma, seu bom nome e felicidade virão à ruína.
Mas se um nobre discípulo vê esses cinco como contaminações da mente, ele irá abandoná-los. E, fazendo isso, ele é considerado alguém de grande sabedoria, de abundante sabedoria, possuidor de visão clara, bem equipado com o dom sabedoria. Isso é chamado 'dom da sabedoria'".

* * *

"Existem cinco contaminações que, se presentes no ouro, impedem que ele seja flexível e maleável, fazem ele perder o brilho, o tornam quebradiço e inadequado para ser bem moldado. Quais cinco? Ferro, cobre, estanho, chumbo e prata.
Mas se o ouro estiver livre dessas cinco contaminações, então ele será flexível e maleável, brilhante e resistente, e poderá ser bem moldado. Quaisquer ornamentos que alguém queira fazer com ele, seja uma coroa, um brinco, um colar ou uma corrente de ouro, ele servirá ao propósito.
Da mesma forma, existem cinco contaminações, que, se presentes na mente, impedem que ela seja flexível e maleável, fazem ela perder a lucidez radiante e firmeza, e impedem que ela se concentre bem para a erradicação das impurezas. Quais são essas cinco contaminações? Elas são: desejo sensual, má-vontade, preguiça e torpor, inquietação e ansiedade, e dúvida.
Mas se a mente estiver livre dessas cinco contaminações, então ela será flexível e maleável, ela terá lucidez radiante e firmeza e estará bem concentrada para a erradicação das contaminações. Qualquer estágio alcançável pelas faculdades mentais superiores para que ele direcione sua mente, ele irá adquirir em cada caso a capacidade de realização, se as (outras) condições forem preenchidas."

* * *

"E como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos cinco obstáculos?
Aqui, havendo nele desejo sensual, um bhikkhu compreende: 'Existe em mim desejo sensual'; ou não havendo nele desejo sensual, ele compreende: 'Não existe em mim desejo sensual'; e ele também compreende como se despertam os desejos sensuais que ainda não despertaram e como acontece o abandono de desejos sensuais despertos e como acontece para que desejos sensuais abandonados não despertem no futuro.
Havendo nele má-vontade ... havendo nele preguiça e torpor ... havendo nele inquietação e ansiedade ... havendo nele dúvida, um bhikkhu compreende: 'Existe dúvida em mim'; ou não havendo dúvida nele, ele compreende: 'Não existe dúvida em mim'; e ele compreende como se desperta a dúvida que ainda não se despertou e como acontece o abandono da dúvida desperta e como acontece para que a dúvida abandonada não desperte no futuro."

* * *

Fazer uma nota mental imediatamente após o surgimento de um dos obstáculos, assim como recomendado no texto anterior, é um método simples, mas também muito efetivo para afastar essas e outras contaminações da mente. Fazendo isso, um "freio" é aplicado contra a continuação do fluxo descontrolado dos pensamentos prejudiciais e, a vigilância da mente ao reaparecimento deles é fortalecida. Esse método se baseia no simples fato psicológico que é expressado pelos comentaristas da seguinte forma: "Um pensamento hábil e inábil não podem ocorrer juntos ao mesmo tempo na mente. Portanto, na hora que se reconhece o desejo sensual (que surgiu no momento precedente), aquele desejo sensual não mais existe (há somente o ato de conhecer)."

Fonte: www.acessoaoinsight.net

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Location:Jaraguá do Sul,Brazil

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Planejar o Futuro





Pergunta: Ocupar-se do momento presente exclui planejar/projetar para o futuro? Não se ocupar nem do passado nem do futuro e ter projetos para a vida cotidiana, será tal coisa possível? Até onde se pode projetar? Isso me coloca um grande problema.

Resposta: Esta pergunta é muito importante. Dogen Zenji disse: “Quando abrimos as mãos e largamos tudo, temos as mãos enchidas”. Quando se começa a falar, muitas palavras chegam naturalmente. O que você quer, aquele lugar ao qual você quer chegar não se produz forçosamente do jeito que você está querendo. Mas quando se dá um passo atrás, aquele objetivo avança e vem em sua direção. É exatamente como eu disse, caminhar na chuva de granizo.

No que me toca, eu fiquei freqüentemente com raiva porque nada tinha para o amanhã, tinha fome. Subitamente, certo dia, alguém veio e me colocou na mão um cheque de mais ou menos quinhentos reais. Quando esperamos, nada vem, e quando não esperamos mais, as coisas chegam. Nossa vida é assim.

Antes de vir para o Brasil, eu trabalhava no Japão como editor de uma editora. Eu tinha que me encontrar com professores universitários muito importantes, mas muito ocupados e obter deles artigos para publicar.

Eu queria, mas não era fácil porque todo mundo era muito ocupado. Eu lhes visitava cedo de manhã, sobretudo quando chovia, mas nem sempre conseguia, ou então tarde da noite. Mas isso era muito delicado. Eu tinha começado a estudar seus hábitos, sua origem, suas atividades e seus hobbies. Um dia, eu me encontrei com um grande professor, eu diria o professor dos professores. Havia muitos de seus discípulos antigos que estavam agora como professores de eminentes universidades. Esse grande professor já estava aposentado e era muito difícil encontrar com seus discípulos, que eram muito orgulhosos e desagradáveis.
Então, eu prestei uma visita a este grande professor que havia traduzido um livro do Shobogenzo e lhe contei sobre minha experiência no mosteiro, de monge, esquecendo que eu precisava de um artigo. Começamos a falar livremente do Zen, do Caminho, do Dharma. Eu esqueci da hora e em certo momento disse: “Eu tenho que ir embora”. Então o professor me disse: “Espere, espere, você esqueceu isto”. E ele me entregou um livro que já estava pronto.

A partir do momento em que obtive um artigo deste professor, todos seus discípulos concordaram que deviam me entregar artigos deles também, sem que fosse necessário pedir demais. Isso não acontece sempre assim, mas com o zazen, o estado de espírito se modifica pouco a pouco.

Em geral é preciso planejar e organizar as coisas, mesmo que não estejam indo como se deseja, mas com o tempo, a prática, isso tudo muda um pouco e começamos a nos liberar, a abandonar, a deixar cair esta necessidade de se preparar. E quando nos encontramos aqui, então chega tudo. Isso é sem dúvida uma coisa maravilhosa da existência.

É neste sentido que Dogen Zenji diz que quando nos esforçamos por obter a iluminação, é uma ilusão. Quando todos os fenômenos dão a confirmação de sua iluminação, isso é o satori.


Fonte:
http://tokuda-igarashi.net/wp/


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domingo, 18 de setembro de 2011

O Mito da Mera Atenção.





O Mito da Mera Atenção

O Buda nunca usou a palavra “mera atenção” nas suas instruções de meditação. Isto porque ele compreendeu que a atenção nunca ocorre numa forma de condição mera, pura ou incondicional. Ela é sempre colorida pelas nossas opiniões e percepções: os rótulos que temos a tendência de dar para os eventos; e pelas intenções: a escolha para onde dirigir a atenção e a razão para estar atento. Se não compreendermos a natureza condicionada mesmo de simples atos de atenção, poderemos presumir que um momento de atenção não-reativa é um momento da iluminação. E deste modo não estaremos considerando um dos mais cruciais insights da meditação Budista, de como até os eventos mentais mais simples podem formar uma condição para o apego e o sofrimento. Se tomarmos um evento condicionado como incondicionado, fecharemos a porta para o incondicionado. Portanto, é importante entender a natureza condicionada da atenção e como o Buda recomendou que ela fosse treinada – como atenção com sabedoria – para ser um fator do caminho que leva para além da atenção, para a completa iluminação.
O termo em Pali para atenção é manasikara. Você pode ter ouvido que o termo para mindfulness – sati – significa atenção, mas não é como o Buda usava o termo. Mindfulness, para ele, significa manter alguma coisa em mente. É a função da memória. Quando praticamos o estabelecimento de mindfulness, (satipatthana), permanecemos focados na observação do objeto que foi escolhido como base de referência: o corpo, as sensações, a mente ou as qualidades mentais. Esse processo de ficar firmemente focado na observação de um objeto é chamado anupassana, e requer a ajuda de três qualidades mentais. Atenção plena, (satima), para manter o objeto de referência em mente, para continuar se lembrando dele. Ao mesmo tempo, precisamos estar alertas, completamente conscientes do que estamos fazendo, (sampajañña), para ter certeza que estamos realmente fazendo aquilo que está na mente como tarefa. Por fim precisamos ser zelosos ou ardentes, (atapi), para fazer isso habilidosamente. O ato de observar um objeto desse modo – com atenção plena, plena consciência e ardente – é o que constitui o estabelecimento da atenção plena, (mindfulness), que então forma o tópico ou tema, (nimitta), da concentração correta.
Por exemplo, se focarmos na respiração como objeto de referência, anupassana, isso significa manter contínua atenção na respiração. Atenção plena significa simplesmente lembrar de ficar com isso, mantendo isso na mente o tempo todo, enquanto que ter plena consciência significa saber claramente o que a respiração está fazendo e quão bem você está permanecendo com ela. Ardência é o esforço para fazer tudo isso habilidosamente. Quando todas essas atividades permanecem completamente coordenadas, elas formam o tema da nossa concentração.
Mas, para compreender como a atenção com sabedoria funciona no contexto desse treinamento, primeiro temos de compreender como a atenção habitual funciona numa mente não treinada.
O Condicionamento da Atenção
No ensinamento da origem dependente – a explicação do Buda de como os eventos interagem para criar as condições para o sofrimento – a atenção aparece no início da seqüência, no fator dos eventos mentais chamado “mentalidade”. Seguido de ignorância, fabricação e consciência; e precedido dos seis meios dos sentidos, contato e sensação.
“Ignorância” aqui não significa uma falta geral de conhecimento. Significa não compreender a experiência dentro do contexto das quatro nobres verdades: sofrimento, sua causa, sua cessação e o caminho para a sua cessação. Qualquer outro sistema para entender a experiência, não importando quão sofisticado, qualificaria como ignorância. Exemplos clássicos dados no Cânone incluem uma visão das coisas através do princípio do eu e do outro, ou da existência e da não-existência: O que sou eu? O que eu não sou? Eu existo? Eu não existo? As coisas existem fora de mim? Elas não existem?
Essa ignorância condiciona a fabricação intencional, ou manipulação, dos estados corporais, verbais e mentais. A respiração é o principal meio de fabricação de estados corporais e a experiência prática mostra que - ao promover o aparecimento de sensações de conforto e desconforto - ela também tem um impacto nos estados mentais. Quando colorida pela ignorância, até a respiração pode agir como uma causa de sofrimento. Quanto aos estados verbais, o pensamento aplicado e o pensamento sustentado são os meios para a fabricação de palavras e sentenças , enquanto os estados mentais são fabricados pelas sensações – prazer, dor, nem-prazer, nem-dor e percepções – os rótulos que colocamos nas coisas.
A consciência sensorial é colorida por essas fabricações. E aí – com base nas condições de ignorância, fabricação e consciência sensorial – o ato da atenção surge como um evento de um grupo de eventos mentais e físicos chamados mentalidade e materialidade.
Como se as precondições para a atenção já não fossem complexas o suficiente, as condições que surgem concomitantemente à mentalidade-materialidade adicionam um outro nível de complexidade. “Materialidade ou Forma” significa a forma do corpo como experienciado a partir de dentro e delineado pela atividade da respiração. “Mentalidade” inclui não só a atenção, mas também intenção, novamente; sensação e percepção, novamente; e contato, que aqui aparentemente significa contato entre todos os fatores já listados.
Todas essas condições, agindo juntas, são o que ordinariamente colorem cada ato da atenção para cada um dos seis sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato, e o sentido da mente que sabe as qualidades mentais e idéias.
A partir disso – e muito mais poderia ser dito sobre essas condições – deveria ser óbvio que o simples ato da atenção é qualquer coisa, menos mera. A atenção é em geral moldada por idéias ignorantes e as ações intencionais influenciadas por essas idéias. Como resultado, habitualmente a atenção é sem sabedoria: aplicada às coisas erradas e por razões não apropriadas, agravando assim o problema do sofrimento, ao invés de aliviá-lo.
Treinando a Atenção com sabedoria
Então, como a atenção pode ser treinada na outra direção? Obviamente, ela deveria ser livre das condições de ignorância, mas isto não significa que ela deveria – ou mesmo que pode – ser inteiramente livre de condicionamentos. Afinal, isso requereria um ato da vontade, e esse ato de vontade teria de ser formado por um entendimento correto e pragmático do sofrimento e das suas causas. E também, esse ato de vontade e esse entendimento teria de ser trazido à mente continuamente para que a atenção pudesse ser re-treinada continuamente.
Assim, ao invés de ser despojada de todas as condições, a atenção requer esse novo conjunto de condições para fazer com que ela se torne sábia. É por isso que o Buda disse que os fatores correspondentes ao caminho – entendimento correto, esforço correto e atenção plena correta – estão sempre juntos com cada passo do caminho. Entendimento correto fornece a habilidade de ver as coisas sob o prisma das quatro nobre verdades, o esforço correto ativa o desejo e a intenção de agir habilmente em relação a esse entendimento, enquanto que a atenção plena correta fornece uma base sólida para a manutenção desse entendimento e desse esforço na mente.
Desses três fatores do caminho, entendimento correto vem primeiro, pois é o antídoto direto para a primeira condição da ignorância. Entendimento correto não é simplesmente conhecimento sobre as quatro nobres verdades; é o entendimento que vê as coisas sob o ângulo dessas verdades. Em outras palavras, para uma pessoa que objetiva o fim do sofrimento e do estresse, esse entendimento indica os quatro principais fatores que devem ser buscados a todo momento. Ao mesmo tempo, o entendimento vê as tarefas e obrigações apropriadas a cada fator: o sofrimento deve ser compreendido, a sua causa abandonada, a sua cessação realizada, e o caminho para a sua cessação desenvolvido. Como o Buda mencionou no seu primeiro sutta, esse conhecimento das tarefas apropriadas para cada verdade vem em dois estágios. O primeiro, identifica a tarefa. O segundo, compreende que a tarefa foi completada. Esse segundo estágio é o conhecimento da iluminação. Entre o primeiro estágio e o segundo estágio se estende a prática.
O que isso significa é que a prática será marcada por períodos alternados de ignorância e sabedoria, com a sabedoria crescendo gradualmente cada vez mais forte e mais refinada. Durante esses períodos de sabedoria, o ato da atenção será informado pelo entendimento do sofrimento e das suas causas. Será motivado também pelas intenções – expressadas através da maneira como nos relacionamos com a respiração, pela atividade mental referente ao pensamento aplicado e pensamento sustentado e pelas nossas percepções e sensações – que objetivam trazer o sofrimento para um fim. Essa combinação do entendimento sábio e da intenção compassiva é o que transforma o ato da atenção, de causa do sofrimento numa estratégia saudável: uma atenção curativa. Essa atenção curativa é chamada sábia por que olha para as coisas de maneira apropriada para seguir adiante com as tarefas das nobres verdades, focando em quaisquer que sejam as tarefas que necessitem ser desenvolvidas num determinado momento.
Por exemplo, quando a atenção precisar ser focada na compreensão do sofrimento, o papel da atenção com sabedoria é ver os agregados – os componentes do nosso sentido de eu – de tal modo que induza o desapego em relação a eles.
“Um bhikkhu virtuoso, meu amigo Kotthita, deveria observar com atenção com sabedoria os cinco agregados influenciados pelo apego como impermanentes, sofrimento, uma enfermidade, um câncer, uma flecha, dolorosos, uma aflição, estranhos, uma dissolução, um vazio, não-eu. Quais cinco? A forma como um agregado influenciado pelo apego, sensação ... percepção ... formações ... consciência como um agregado influenciado pelo apego. Um bhikkhu virtuoso deveria observar com atenção com sabedoria esses cinco agregados influenciados pelo apego como impermanentes, sofrimento, uma enfermidade, um câncer, uma flecha, dolorosos, uma aflição, estranhos, uma dissolução, um vazio, não-eu. Pois, é possível que, um bhikkhu virtuoso, que observe com atenção com sabedoria esses cinco agregados como impermanentes ... não-eu, possa alcançar o fruto de ‘entrar na correnteza’” [ SN 22.122]
Dar atenção aos agregados dessa forma ajuda a progredir na tarefa do abandono de qualquer apego aos agregados que causem sofrimento.
Quando a atenção precisa ser focada no desenvolvimento do caminho, o papel da atenção com sabedoria é alimentar os fatores da iluminação e esfomear os cinco obstáculos que atrapalham. Aqui é onde a atenção com sabedoria se aplica à prática do estabelecimento da atenção plena, levando-se em conta que a atenção plena solidamente estabelecida é o primeiro fator da iluminação. Assim, um dos primeiros papéis da atenção com sabedoria é alimentar o desenvolvimento da atenção plena.
A imagem de alimentar ou esfomear está aqui diretamente relacionada com o insight da condicionalidade que formou a mensagem essencial da iluminação do Buda. De fato, quando ele introduziu o tópico da condicionalidade aos jovens noviços, ele o ilustrou com o ato da alimentação: Todos os seres, ele disse, sobrevivem de comida. Se a existência deles depende do ato de comer, então, ela termina quando eles são privados dessa comida. A aplicação dessa analogia ao problema do sofrimento nos leva à conclusão de que, se o sofrimento depende de condições, ele pode ser levado a um fim se o esfomearmos das suas condições.
Na sua expressão mais sofisticada, porém, o insight do Buda, em relação à causalidade, indica que cada momento é composto de três tipos de fatores: resultados de intenções no passado, intenções no momento presente e resultados de intenções no momento presente. Por que muitas intenções no momento passado podem ter um impacto a qualquer momento, isso significa que pode haver muitas influências potenciais provindas do passado – benéficas ou prejudiciais – aparecendo no corpo ou mente a todo momento. O papel da atenção com sabedoria é focar em qualquer que seja a influência potencialmente mais benéfica e olhar de tal modo que promova intenções habilidosas no presente momento.
Alimentando e Esfomeando
O Discurso da Comida, (Ahara Sutta, SN 46.51), indica como a atenção com sabedoria pode ser aplicada aos potenciais do momento presente para esfomear os obstáculos e alimentar os fatores da iluminação. Em relação aos obstáculos ele indica que:
Desejo sensual é alimentado pela atenção sem sabedoria ao tema da beleza e esfomeado pela atenção com sabedoria ao tema do não atrativo. Em outras palavras, para esfomear o desejo sensual voltamos nossa atenção dos aspectos de beleza do objeto de desejo e focamos, ao invés, no seu lado não atrativo.

Má vontade é alimentada pela atenção sem sabedoria ao tema da irritação e esfomeada pela atenção com sabedoria ao abandono mental através da boa vontade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade. Em outras palavras, voltamos nossa atenção dos aspectos irritantes que irradiam má vontade e focamos, ao invés, em quanta liberdade a mente experiencia quando pode cultivar essas atitudes sublimes no seu íntimo.

Preguiça e torpor são alimentados pela atenção sem sabedoria aos sentimentos de tédio, sonolência e preguiça. São esfomeados pela atenção com sabedoria a qualquer potencial de energia ou esforço no presente.
Inquietação e ansiedade são alimentadas pela atenção sem sabedoria à falta de tranqüilidade na mente e esfomeadas pela atenção com sabedoria a qualquer tranqüilidade mental que estiver presente.

Dúvida é alimentada pela atenção sem sabedoria aos tópicos que são abstratos e conjecturais e é esfomeada pela atenção com sabedoria às qualidades hábeis e não hábeis da mente. Em outras palavras, ao invés de focar em assuntos que não podem ser resolvidos através da observação no presente momento, focamos em um que pode: quais qualidades mentais resultam em prejuízo para a mente e quais não.

Em resumo, cada obstáculo é esfomeado pela mudança tanto de foco como de qualidade da atenção.
Com os fatores da iluminação, no entanto, o processo de alimento consiste principalmente de mudança da qualidade da atenção. O discurso lista cada fator – atenção plena, investigação dos fenômenos, energia, êxtase, tranqüilidade, concentração, (os quatro jhanas), e equanimidade – junto com a sua base potencial, dizendo que o fator é esfomeado pela atenção sem sabedoria e alimentado pela atenção com sabedoria. Com exceção de uma, o discurso não menciona o nome de cada base. Aparentemente, o propósito disso é desafiar o meditador. Uma vez que o meditador tenha recebido as instruções para a atenção plena e concentração, ele deverá tentar identificar na sua própria experiência qual é a base potencial de cada fator da iluminação.
A única exceção, no entanto, é esclarecedora. A base do segundo fator – investigação dos fenômenos – é a presença de qualidades mentais hábeis e não hábeis. Dar atenção com sabedoria para essas qualidades não só alimenta o fator da investigação dos fenômenos, como também esfomeia o obstáculo da dúvida, e ao mesmo tempo, fornece o referencial para a identificação, por você mesmo, das bases para cada um dos fatores da iluminação restantes.
Desses fatores, a equanimidade é o mais próximo do que é algumas vezes descrito como mera atenção ou atenção não reativa. Mas até mesmo a equanimidade é condicionada pelas idéias e intenções. Por exemplo, o Buda mostra no MN 101 que ao encontrar qualidades não hábeis na mente, o meditador observará que algumas dessas qualidades desaparecerão somente através de um esforço concentrado; em outros casos, porém, só olhar com equanimidade já será o suficiente. Mas até mesmo essa equanimidade é condicionada por um entendimento do que é hábil e não-hábil e está motivada para fazer o que é não-hábil desaparecer.
Não Fabricação
De fato, a equanimidade tem vários níveis, e um insight crucial no nível mais alto da prática é ver que mesmo a equanimidade dos estados refinados de jhana – nos quais a consciência e seu objeto parecem totalmente “unificados” – é uma fabricação: condicionada e resultante da volição. Ao ganhar esse insight, a mente se inclina na direção do que chamamos de “não-fabricação”, (attammayatta) – literalmente, “não-feito-disso”, onde nada é absolutamente adicionado aos dados da experiência sensorial.
A mudança da equanimidade para a não-fabricação é descrita resumidamente numa passagem famosa:
“Então, Bahiya, você deve treinar assim: Com relação ao que é visto, haverá apenas o visto. Com relação ao que é ouvido, haverá apenas o ouvido. Com relação ao que é sentido, haverá apenas o sentido. Com relação ao que é conscientizado, haverá apenas o conscientizado. Assim é como você deve treinar. Quando com relação ao que é visto houver apenas o visto, ao que é ouvido houver apenas o ouvido, ao que é sentido houver apenas o sentido, ao que é conscientizado houver apenas o conscientizado, então, Bahiya, você não estará ‘com aquilo.’ “Quando você não estiver ‘com aquilo,’ então você não estará ‘naquilo.’ Quando você não estiver ‘naquilo,’ então você não estará aqui, nem além e tampouco entre os dois. Isso em si mesmo é o fim do sofrimento.” [ Ud I.10]
Superficialmente, essas instruções podem dar a impressão de estar descrevendo a mera atenção, mas se olharmos mais detidamente veremos que tem mais coisa por trás disso. Para começar, as instruções vêem em duas partes: o conselho sobre como treinar a atenção e a promessa dos resultados que virão do treino da atenção dessa maneira. Em outras palavras, o treino também está operando no nível condicionado de causa e efeito. É algo para ser feito. Isso significa que é moldado por uma intenção, o que por sua vez é moldado por um entendimento. A intenção e o entendimento são formados pela parte “resultado” da passagem: O meditador quer atingir o fim do estresse e sofrimento e, portanto, está querendo seguir o caminho para esse fim. Assim, com cada nível distinto da atenção com sabedoria, a atenção correspondente desenvolvida é condicionada pelo entendimento correto – o conhecimento de que as intenções no presente são no final das contas a fonte do sofrimento – e motivadas pelo desejo de colocar um fim a esse sofrimento. É por isso que o esforço é feito para não adicionar absolutamente nada aos potenciais vindos do passado.
A necessidade do entendimento correto pareceria inexistente diante das circunstâncias que circundam essas instruções. Afinal, essas são as primeiras instruções que Bahiya recebe do Buda, e ele realiza a iluminação imediatamente depois de recebê-las, portanto as instruções parecem serem completas por si mesmas. Entretanto, naquilo que antecede essa passagem, Bahiya é descrito como uma pessoa extraordinariamente atenta e motivado em relação à pratica. Ele já sabe que a iluminação é realizada através do ‘fazer algo’ e as instruções vêem em resposta ao seu pedido de um ensinamento que lhe mostrasse o que fazer agora para o seu bem estar e felicidade por muito tempo – a pergunta que o MN 135 identifica como a base da sabedoria e discernimento. Assim, a atitude dele contém todas as sementes do entendimento correto e da intenção correta. Por que ele era sábio – o Buda mais tarde o elogiou como o principal entre os seus discípulos em relação à rapidez do seu discernimento – ele foi capaz de trazer aquelas sementes para fruição imediatamente.
Um verso do SN 35.95 – dito pelo Buda, expressa o sentido das instruções para Bahiya – dá uma explicação sobre como Bahiya pode ter desenvolvido essas sementes.
“Quando, com firme atenção plena, ele vê uma forma, ele não se inflama com a cobiça pelas formas; ele as experimenta com a mente desapegada e não permanece agarrado naquilo com intensidade."
“Ele assim permanece com atenção plena de tal modo que mesmo ao ver a forma, e enquanto sente uma sensação, [o sofrimento] é exaurido, não acumulado. Para aquele que assim desmantela o sofrimento, é dito que Nibbana está muito próximo."
Note duas palavras nesses versos: atenção plena e desapegado. A referência à atenção plena enfatiza a necessidade de continuamente se lembrar da intenção de não adicionar nada a quaisquer potenciais do passado. Isso novamente aponta para a natureza da atenção provida de volição que está sendo cultivada.
Algumas interpretações das instruções para Bahiya sugerem que há um fator adicionado, de um entendimento metafísico de algo por detrás dos dados das experiências, mas esse tipo de idéia metafísica – mesmo que possa constituir uma base para a paixão – será apenas uma entre muitas bases. A crença de que existe algo no exterior que pode ser agarrado e possuído pode obviamente formar uma condição para a paixão, mas assim também a crença de que não existe nada no exterior: quando não existe nada, não haverá nenhum dano ao ceder ao desejo, o tipo de idéia que pode justificar todas as paixões prejudiciais. Então, o meditador tem de ser muito cauteloso para não adicionar hipóteses aos dados da experiência que possam de alguma maneira, forma ou jeito que seja, encorajar a paixão. E isso envolve mais do que mera atenção. Isso requer entendimento correto sobre como a paixão funciona e o que é necessário para derrotá-la.
A noção que temos de quem somos é definida por nossas paixões, (como indicado nos SN 22.36 e SN 23.2). Mesmo quando não pensamos conscientemente no “eu” – como quando estamos totalmente imersos numa atividade, unificados com a atividade – pode existir a paixão por esse estado de unificação com um forte sentido de “estar aqui”, “ser o fazedor”, ou "ser o sabedor”, que é uma forma sutil de identidade.
Mas quando o discernimento está afiado o suficiente para ver que mesmo essa equanimidade é fabricada e condicionada, algo que é feito, (veja MN 137 e MN 140), qualquer paixão por isso pode também ser enfraquecida. Quando a paixão consistentemente não tem um lugar para pousar, não existe o núcleo para um “lugar” de nenhum tipo: nenhum “aqui”, nenhum “lá”, nenhum núcleo para fabricar um sentido de identidade em torno de alguma coisa em absolutamente nenhum lugar. Isso explica o porque do estado de não–fabricação ser expressado como destituído de lugar: “Quando você não estiver ‘com aquilo,’ então você não estará ‘naquilo.’ Quando você não estiver ‘naquilo,’ então você não estará aqui, nem além e tampouco entre os dois.”
Com o total desaparecimento da paixão, a intenção final de enfraquecer a paixão pode então ser abandonada. Quando ela é abandonada – sem necessidade de substituição por nenhuma outra – nada mais é construído. Isso traz a verdadeira abertura para o Imortal, que está além de todas as condições – até mesmo das condições de entendimento correto, atenção plena e atenção com sabedoria.
A extraordinária natureza dessa experiência é indicada pelo verso que conclui o discurso para Bahiya:
"Onde a terra, água, fogo e ar, grande e pequeno, fino e grosseiro, puro e impuro – não encontram apoio:
Onde as estrelas não brilham,
o sol não È visÌvel,
a lua não aparece,
a escuridão não é encontrada.
E quando um sábio,
um brâmane através da sabedoria,
compreendeu isso de modo direto,
então do material e do imaterial,
do prazer e da dor,
ele está libertado."
Quando a pessoa iluminada emerge da sua experiência e recomeça a lidar com as condições de tempo e espaço, é com uma perspectiva totalmente nova. Mas até mesmo nesse caso, ele/ela ainda encontrarão utilidade para a atenção com sabedoria. Como o Venerável Sariputta observa no SN 22.122:
"Um arahant deveria observar com atenção com sabedoria os cinco agregados influenciados pelo apego como impermanentes, sofrimento, uma enfermidade, um câncer, uma flecha, dolorosos, uma aflição, estranhos, uma dissolução, um vazio, não-eu. Apesar de não existir nada mais a ser feito e nada a acrescentar àquilo que já foi feito por um arahant, ainda assim, quando essas coisas são desenvolvidas e cultivadas, elas conduzem a um estado prazeroso no aqui e agora, à atenção plena e à completa compreensão."
Portanto, é importante compreender que não existe essa coisa de mera atenção na prática dos ensinamentos do Buda. Ao invés de tentar criar uma forma incondicionada de atenção, a prática tenta criar um conjunto de condições habilidosas para moldar e direcionar o ato da atenção para transformá–la em sábia: verdadeiramente curativa e que verdadeiramente leva ao fim do sofrimento e estresse. Uma vez que essas condições tenham sido bem desenvolvidas, o Buda garante que elas serão muito úteis – mesmo depois de passado o momento da iluminação, todo o tempo, até a última morte.
Postado em: www.acessoaoinsight.net

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Location:R. Vinte e Dois,Balneário Camboriú,Brazil

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