sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Roda da Vida








"Se o sofrimento foi criado, construído, ele pode ser dissolvido, desconstruído. Para tanto, é necessário aprender a percorrer o caminho inverso, coisa que Padma Samten ensina com maestria. Mas só isso não é suficiente. A lucidez é alcançada pelo cultivo de uma mente compassiva, associado à realização da vacuidade, termo que não significa vazio, como muitos acreditam. Dizer que tudo é vacuidade é afirmar que os fenômenos – as coisas e as relações – não existem por si mesmos; existem apenas na dependência de; interdependentemente.
O entendimento intelectivo do conceito, entretanto, não implica em sua realização. Quando esta acontece, a visão de mundo é profundamente alterada e a pessoa sente-se conectada com o todo. A verdadeira compreensão da essência da realidade ocasiona uma abertura inigualável para o outro e para o mundo. Com exemplos retirados do cotidiano, Lama Samten explica a vacuidade da forma simples, a fim de tornar o caminho rumo à libertação acessível ao maior número possível de pessoas.

Além de ter a virtude de reunir os mais importantes ensinamentos budistas, apresentando ao leitor noções complexas e sofisticadas, livro tem o mérito de mostrar como esse conhecimento pode (e deve) ser aplicado no dia-a-dia por qualquer pessoa que deseje livrar-se do sofrimento.

O Buda disse que ninguém deveria aceitar suas ideias baseando-se apenas na fé. O praticante do budismo deve testar os ensinamentos e ver se funcionam ou não em sua vida.

“Em termos filosóficos, o budismo é uma religião extremamente sofisticada, mas que pode ser resumida em duas palavras: compaixão e sabedoria. Procurar desenvolver essas qualidades é o que todo budista deve fazer em sua prática em busca da iluminação”, diz Lama Samten. Um conselho útil a todos."

http://www.cebb.org.br/lamasamten/84-noticias/444-novo-livro-do-lama-samten-qa-roda-da-vida-como-caminho-para-a-lucidezq



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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Futuro.





Não persiga o passado
Não se perca no futuro
O passado não mais existe
O futuro ainda não veio.
Olhando em profundidade para a vida como é
Neste exato aqui e agora,
O praticante habita
Na estabilidade e liberdade.
Precisamos ser diligentes hoje.
Esperar até amanhã pode ser tarde demais.
A morte vem inesperadamente.
Como podemos barganhar com ela?
Um sábio chama uma pessoa que sabe
Como morar na plena atenção
Dia e noite
“Aquele que sabe
A melhor maneira de viver sozinho.”

(Do sutra sobre a Melhor Maneira de Viver Sozinho)



Às vezes, porque o presente está muito difícil, levamos nossa atenção ao futuro esperando que a situação melhore no futuro. Imaginando que o futuro será melhor, mais facilmente aceitamos o sofrimento e as privações do presente. Mas, outras vezes, pensar sobre o futuro pode nos causar muito medo e ansiedade, e mesmo assim não conseguimos parar de fazer isso.

A razão pela qual continuamos a pensar no futuro mesmo quando não queremos é por causa das formações mentais. Mesmo sem estar aqui ainda, o futuro já está produzindo fantasmas que nos assustam. Na verdade, estes fantasmas não são produzidos pelo futuro ou pelo passado. É a nossa consciência que os cria. O passado e o futuro são criações da nossa consciência.

As energias por traz do nosso pensar sobre o nosso futuro são nossas esperanças, sonhos e ansiedades. Nossas esperanças podem ser resultado de nossos sofrimentos e falhas. Como o presente não nos traz felicidade, permitimos que nossas mentes viajem para o futuro. Esperamos que no futuro, a situação seja mais brilhante:

“Quando alguém pensa como seu corpo será no futuro, como seus sentimentos serão no futuro, como suas formações mentais serão no futuro, como sua consciência será no futuro...”.

Pensar desta maneira pode nos dar coragem para aceitar a falha e o sofrimento no presente. O poeta Tru Vu disse que o futuro é a vitamina para o presente. Esperança nos traz de volta algumas das alegrias da vida que perdemos.

Todos sabemos que esperança é necessária para a vida. Mas de acordo como budismo, a esperança pode ser um obstáculo. Se investirmos nossa mente no futuro, não teremos energia mental suficiente para encarar e transformar o presente. Naturalmente temos o direito de fazer planos para o futuro, mas fazer planos não significa ser varrido por sonhos, devaneios. Enquanto estamos fazendo planos, nossos pés devem estar firmemente plantados no presente. Só podemos criar o futuro da matéria prima do presente.

O ensinamento essencial do budismo é ser livre de todos os desejos no futuro, de forma a voltar com todo o nosso coração e mente para o presente. Realizar o despertar significa chegar em uma profunda e completa visão da realidade, que é o momento presente.

De forma a voltar ao presente e ficar face a face com o que está acontecendo, devemos olhar em profundidade no coração do que existe e experimentar sua verdadeira natureza. Quando fazemos isso, experimentamos um entendimento profundo que pode nos libertar do sofrimento e da escuridão.

De acordo com o budismo, inferno, paraíso, samsara e nirvana estão todos aqui no momento presente. Retornar ao momento presente é descobrir a vida e perceber a verdade. Todos os Despertos do passado têm seu Despertar no momento presente. Todos os Despertos do presente e do futuro realizarão o fruto do Despertar no presente também. Apenas o momento presente é real;

“O passado não mais existe e o futuro ainda não veio.”

Se não ficarmos de pé firmemente no momento presente, podemos nos sentir sem base quando olharmos para o futuro. Podemos pensar que no futuro estaremos sozinhos, sem lugar para nos refugiar e ninguém para nos ajudar.

“Quando alguém pensa como seu corpo será no futuro, como suas formações mentais serão no futuro, como sua consciência será no futuro...”

Estas preocupações sobre o futuro nos tiram a tranqüilidade, nos geram ansiedade e medo e não nos ajudam a tomar conta do momento presente. Eles apenas fazem nosso modo de lidar com o presente fraco e confuso. Há um ditado confucionista que diz que uma pessoa que não sabe como planejar para o futuro distante ficará preocupada e perplexa no futuro próximo. O propósito disto é nos lembrarmos de tomar conta do futuro, mas não ficarmos ansiosos e termos medo dele.

A melhor maneira de se preparar para o futuro é tomar muito cuidado com o presente, porque sabemos que se o presente é feito do passado, então o futuro é feito do presente. Tudo que precisamos no responsabilizar é pelo momento presente. Apenas o presente está no nosso alcance. Cuidar do presente é cuidar do futuro.

(Do livro “Our appointment with life”– Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)


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Location:Jaraguá do Sul,Brazil

domingo, 3 de outubro de 2010

A Esperança e a Fé no Buddhismo



A Esperança e a Fé no Buddhismo

Neste sentido, o melhor que temos a fazer, dentro de uma perspectiva contemplativa, é desenvolvermos ações responsáveis no momento presente. De nada adianta esperar passivamente que as coisas melhorem. É preciso fazer uma distinção entre a esperança voltada para as coisas do mundo e aquela voltada para as coisas espirituais. Por exemplo, “eu tenho esperança de comprar um apartamento ou melhorar de vida no futuro”. Isto é expectativa e cria ansiedade e preocupação. O Buddhismo não está interessado neste tipo de esperança. Existe um verso que diz: “O passado já se foi e o futuro ainda não veio, portanto, permaneçam no presente que é o único momento que pode ser de fato vivido”. É algo como o provérbio árabe que diz que você não pode pegar o camelo que ainda não veio nem aquele que já passou! Esperança no Buddhismo está mais relacionada com confiança. Na língua påli é chamada de “saddhå”. Isto é confiar no caminho a ser percorrido, pois levará ao Despertar da ilusão. Alguém que se aproxima da tradição buddhista se surpreenderá de imediato com a naturalidade com que é convidado a investigar por si mesmo os ensinamentos do Buddha e não crer simplesmente no que lhe é dito. De fato, a doutrina buddhista tem sido conhecida desde seus primórdios como “ehi-passiko”, ou seja, aquela que convida a vir e ver por si mesmo.
Somente através da visão direta da verdade pode alguém estar certo de suas qualidades. Neste sentido, a fé cega é justamente o oposto daquilo que se espera do verdadeiro procurador da Verdade. A fé cega ou a crença, nada mais é que um modo de tapar um buraco, o qual deveria ser preenchido com o conhecimento.
Na ausência deste, aparece a crença. Não encontraremos, portanto, a concepção de uma crença pura e simples sendo estimulada nos ensinamentos buddhistas. A palavra mais próxima para “fé” é “saddhå”, que significa muito mais “convicção” do que “crença”. saddhå ou sraddhå (em sânscrito) comporta três aspectos segundo Ósanga, o grande mestre buddhista do século quarto:

1. Convicção completa e firme sobre o que uma coisa é.
2. Alegria serena em razão das boas qualidades.
3. Aspiração ou ânsia em ter a capacidade de alcançar um objetivo em vista.

No primeiro aspecto, saddhå é a fé como uma etapa posterior ao conhecimento. É porque sabemos algo, por experiência ou intelecção, que temos fé naquilo. Saddhå é aqui a fé no conhecimento ou sabedoria já conquistada.

No segundo aspecto, saddhå liga-se com a tranqüilidade na virtude adquirida. Aquele que desenvolveu
as qualidades saudáveis como a sabedoria, a compaixão, a generosidade, a honestidade e outras, e,  consciente de seu campo de virtudes, é tranqüilo e, portanto, confiante. É como alguém que tendo visto os resultados de sua plantação e consciente de sua farta colheita, está seguro e contente em relação à sua situação econômica. Saddhå aqui tem a ver com segurança, tudo isto em relação aos bens (espirituais) conquistados.

No terceiro aspecto, por fim, saddhå refere-se à esperança. Possuir saddhå aqui significa desejar e confiar que seus objetivos serão realizados. No caminho espiritual alguém nada trilhará se começar sem esforço e duvidoso dos resultados desse esforço. É como alguém que começa uma viagem, mas não deseja nem acredita que chegará ao seu destino. Este, no primeiro obstáculo, desistirá, e suas expectativas pessimistas de fato se cumprirão. Em nenhum destes três sentidos vemos saddhå como fé cega ou crença em algo sem sentido. Pelo contrário, é aquela confiança que surge naquilo que já se conhece. Este conhecimento lhe dá confiança. E, por conhecer, ele confia que atingirá também a próxima etapa do caminho. Como diz o Buddha: “...Ó bhikkhus, eu digo que a destruição das manchas e das impurezas é o trabalho de uma pessoa que sabe e vê, e não de uma pessoa que não sabe e não vê” (Samyutta Nikåya III, PTS trans., pg.152). Sigamos, então, o conselho do Buddha: Venham e Vejam por si mesmos a verdade e os resultados da prática do Dhamma!

COMPREENDENDO MELHOR O ENSINAMENTO DO BUDDHA (RICARDO SASAKI, © 1995 

sábado, 2 de outubro de 2010

Reencarnação no Buddhismo

Reencarnação no Buddhismo



A definição da “Realidade Suprema” é uma noção que geralmente tende a separar o Cristianismo do Buddhismo. A questão é menos de contradições intransponíveis que de compreensão mais profunda dos termos envolvidos. Outra das dificuldades entre cristãos e buddhistas tem sido o conceito de reencarnação.
Infelizmente, isto que parece separar estas duas grandes religiões, não passa de um grande erro, pois, ao contrário do que muitos pensam, o Buddhismo não tem uma doutrina reencarnacionista, pelo menos não quando interpretado corretamente. A reencarnação no Buddhismo, quando é mencionada por alguns, é  apenas uma crença popular e exterior, apropriada para aqueles que só conseguem fazer o bem se creditando em um proveito próprio. “Eu faço isto para receber os frutos amanhã ou em outra vida”. É uma crença popular, sustentada seja por orientais que desconhecem qualquer coisa mais profunda de sua tradição, seja por ocidentais iniciantes. É semelhante àqueles cristãos que acreditam que Deus é, realmente, um homem velho e barbudo sentado em um trono de madeira pousado nas nuvens. A idéia ocidental da reencarnação, ou seja, a de que uma alma ou “espírito” imutável ocupa diferentes corpos humanos indefinidamente, nem mesmo existe no Buddhismo (lembremos seu ensinamento fundamental sobre o não-eu), sendo fruto das concepções espíritas surgidas no fim do século XIX. O que o Buddhismo de fato ensina é o renascimento, algo por completo diferente da reencarnação tal como é concebida no Ocidente. No processo de passagem do Buddhismo para o Ocidente entretanto os tradutores e intérpretes ocidentais começaram a fazer uso de suas próprias concepções influenciadas pelo espiritismo para interpretar doutrinas buddhistas, o que teve como resultado um engano que permanece até hoje na mente de alguns que estudam o Buddhismo superficialmente e isto principalmente no Brasil. Como diz o monge Khantipålo: “Uma sucessão de vidas com uma alma encarnando em uma série de corpos é freqüentemente chamada de reencarnação. No Buddhismo, o ensinamento referente a este tema é fundamentalmente diferente... Não há re-encarnação no Buddhismo pois não há entidade espiritual imutável; em termos últimos, nenhuma alma pode ser encontrada que possa se reencarnar. O Buddhismo não constrói a dicotomia entre um corpo perecível de um lado e uma alma eterna  de outro” (Buddhism Explained. Bangkok: Mahamakut Rajavidyalaya Press, 1986). Renascimento significa no contexto buddhista a transmissão ou influência das ações intencionais nos seus frutos. Toda ação intencional, para o bem ou para o mal, gera conseqüências. Diz-se, assim, que a ação “renasce” nos seus frutos, ou seja, há uma interdependência entre ações e reações.

O que o Buddhismo ensina é que a vida é una e uma só, tomando formas diferentes, mas estreitamente dependentes e ligadas entre si. É uma só vida que anima tudo. Daí “vida” ser na Bíblia traduzida muitas vezes do latim anima que significa “alma”. Esta única vida ou “alma” assume várias formas, todas elas impermanentes e transitórias, como tudo o que é criado. Estas formas nascem, morrem, renascem, tornam a nascer e assim por diante. Uma semente também nasce, se desenvolve, se transforma em árvore, que por sua vez morre, mas gera muitas sementes. De certa forma, podemos falar que aquela árvore “renasce” na semente.Entretanto, nem a árvore e sua semente são a mesma, nem são radicalmente diferentes. Se falamos que são iguais, então, caímos no reencarnacionismo. É o mesmo que dizer que a árvore se “reencarnou” na semente! Que ela é o mesmo “ser” em um outro “corpo”. Um completo absurdo! Mas falar que são completamente diferentes entre si é cair no que podemos chamar de ceticismo, agnosticismo ou casuísmo: a concepção que vê tudo como isolado e independente. É a concepção de que uma vez que se morre é o fim e pronto! Ou ainda significa falar que tudo acontece por acaso sem nenhuma ligação anterior. O Buddhismo poderia falar, pelo contrário, que a “ressurreição” ocorre quando estas “porções de vida” compreendem que não são isoladas do todo, mas são expressões de uma única vida. É a Libertação da Ilusão, a Iluminação, o encontro com o Absoluto. Isto tem a ver com responsabilidade universal por todas as coisas. O que fazemos aqui se reflete pelos dez cantos do universo. O pecado (ignorância) de um, mancha todo o resto, como uma gota de tinta jogada em uma bacia de água. Mas também a Iluminação de um salva todo o universo, como uma lâmpada que, quando acesa, ilumina todo o quarto escuro. Desta forma, o Buddhismo terá uma preocupação especial para com o sofrimento. Quando os primeiros ocidentais e cristãos chegaram à Ásia, ficaram surpresos de ver, dentro de templos buddhistas, pinturas e quadros com uma figura masculina e outra feminina se abraçando. Tomaram isto como profanação e idolatria do sexo. Pena que não se lembraram de perguntar aos orientais e aos seus monges o que isto significava. Estas duas figuras se abraçando simbolizam a Sabedoria e o Método.

A Sabedoria é a primeira resposta do Buddhismo para o sofrimento nos dias de hoje. É necessário que o homem cultive um maior entendimento de quem é ele, o que é o Real, o que é o mundo em torno. O nível de compreensão que temos de tudo isto é muito superficial. Somente agora, por exemplo, é que o homem moderno, em escala global, está percebendo que tudo está interligado, e isto devido à tremenda crise ecológica em que vivemos. É necessário aprofundarmos nosso entendimento da realidade e isto inevitavelmente colaborará para a diminuição do sofrimento. A segunda resposta vem através do Método. Isto significa possuir formas efetivas de ação. Ter técnicas e ensinamentos que nos levem a compreender o sofrimento e a dor do mundo e atuar convenientemente para extirpar suas causas. No Buddhismo o método mais supremo é a Compaixão. Somenteela poderá fazer com que quebremos a barreira de nossos egoísmos, e num movimento para frente, possamos ir de encontro às necessidades do próximo, com os corações abertos. É porque tudo está interligado que nossa responsabilidade aumenta. Desfrutamos as ações sábias e as ações que rebaixam a espécie humana. De certo modo, tais ações “renascem” em nós, pois sofremos todas as suas conseqüências.

COMPREENDENDO MELHOR O ENSINAMENTO DO BUDDHA
(RICARDO SASAKI, © 1995)
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